Houve um certo momento de minha vida de blogueira que eu achei que queria ser escritora e escrever tantos livros quanto a Meg Cabot… Bem, acabou que tivemos uma pequena mudança de percurso e de planos (sabe como é, a vida dá voltas…), mas acabou surgindo nesse meio tempo a história de Duda e João Sabiá e eu resolvi compartilhar com vocês aqui! Quero saber o que vocês acharam dela então não deixem de mandar um recadinho pela página de contato para falar sobre ela, ok?! Beijo da Mari!

Por que a droga do elevador nunca chega quando estamos com pressa? — perguntou Duda para si mesma, batendo o pé direito impaciente com a espera. Está atrasadíssima para o Simpósio de Glaucoma que começou há mais de dez minutos na Sala de eventos Mario Quintana do hotel onde está hospedada, em são José dos Campos.
— Ai, que droga! Vou perder a palestra mais importante do congresso por causa destas sacolas idiotas. — reclama sem se perdoar por ter pegado todas as sacolas que lhe ofereceram durante a manhã.
Antes de ir para o simpósio, Duda achou melhor deixá-las em seu quarto e assim ficar mais à vontade nas palestras que vão ocorrer a tarde.
— Finalmente… — resmunga, quando o elevador sinaliza que vai parar no 12º andar.
A porta se abre e, mesmo estando atrasada, ela não entra de imediato. Fica estatelada na soleira da porta, muda e sem reação diante de algo tão belo. Por uma eternidade ficou ali parada apenas olhando aquele lindo homem.
Tudo bem, não deve ter sido tanto tempo assim, mas pela primeira vez na vida alguém a desconcertou sem ao menos ter dito uma única palavra.
Um moreno alto de cabelos negros, brilhantes e fartos. Olhos castanhos, boca carnuda entreaberta, nariz afilado em total harmonia com seu rosto. Vestia jeans escuro, camisa de botão listrada de azul claro com branco e tênis casual. Os dois primeiros botões da blusa abertos deixavam a mostra seu peito moreno com pelos na medida certa.
Nunca vira homem mais lindo em toda sua vida. Se bem que ultimamente não lhe sobrava tempo para reparar em homens, mas aquele deus grego a deixou sem reação alguma, sem rumo, sem fala nem atitude.
Céus, devo estar numa dessas campanhas de perfume da Calvin Klein! — pensou quase sem fôlego.
— Você vai entrar? — perguntou o rapaz.
— Desculpe. Vou entrar sim. — Ajeitando rapidamente os cabelos, entrou e se acomodou ao seu lado, no fundo do elevador.
A porta já estava se fechando quando uma mão interrompe o processo. Uma senhorinha, dessas com jeitinho de avó, colar de pérola, saia plissada e tudo mais, também entra e se posiciona ao lado do painel de botões do elevador e sem ter o cuidado de disfarçar, lança um longo olhar, desses de cima abaixo, para o moço ao lado de Duda.
As portas finalmente se fecham e o elevador começa a descer.
— Você também está participando do congresso? — para sua surpresa, Duda se vê iniciando um diálogo. Com o deus grego, não com a vovozinha.
— Não.
— Ah! — ela se desaponta com a resposta! — Está hospedado no hotel?
— Sim. — responde o bonitão se distraindo com o celular em suas mãos.
Mãos essas que Duda tratou de analisar com muito cuidado. E sentiu um ligeiro alívio quando observou que não havia nenhuma aliança de compromisso naqueles longos dedos.
— Vai ficar muitos dias por aqui? — insiste Duda, arrumando os cabelos atrás da orelha.
Ele a olha intrigado com aquela conversa, mas responde:
— Só até amanhã.
— E você, por acaso, é oftalmologista?
Gente! Quem é essa que baixou em Duda?
— Não, não sou oftalmologista.
— Ok. — Ela faz uma pausa, mas não se contenta com a resposta. — Tem certeza?
— Tenho. — responde se afastando um pouco de perto dela.
— Que pena. — lamenta, olhando para as suas sandálias como se estivesse falando sozinha. — Porque se você fosse, estaria participando do congresso que está acontecendo aqui no hotel e também estaria no jantar que vai ter logo mais a noite. — explicou para o rapaz que a olhava com cara de espanto.
— Ãham, ãham — pigarreou a vovozinha olhando-a de canto de olho.
— Puxa, esse jantar vai ser tão chato. Conheço pouca gente, vou ter que aturar aqueles que bebem além da conta e ficam fazendo piadinhas inapropriadas. — Duda segue falando como uma matraca desembestada sem se deixar intimidar pelo olhar reprovador da boa senhora.
— Aposto que se você fosse oftalmo e, estivesse no jantar de hoje, não faria piadinhas sem noção como os demais. Pelo contrário, conversaríamos a noite inteira num papo agradabilíssimo. Descobriríamos que temos muitas afinidades e daríamos ótimas gargalhadas. Trocaríamos e-mails, depois nos encontraríamos no próximo congresso que vai ter em Brasília no segundo semestre deste ano. E nos tornaríamos grandes amigos.
Deixe-me explicar uma coisa para você, leitora. Juro que essa não é a Duda que eu conheço. Duda é uma pessoa tímida, reservada, de respeito e jamais abordou alguém dessa forma tão, tão… infantil. Acredite em mim, ela não é assim não. O que será que deu nela?

— Chegamos ao térreo. Por favor, senhora. — O bonitão, que também é um cavalheiro, aponta educadamente a porta com uma das mãos para que a doce vovozinha saia do elevador por primeiro.
Duda teve uma breve visão daquele homem sentado em uma poltrona sem camisa. Ela estava em pé atrás dele com suas mãos totalmente perdidas em seus cabelos fartos, puxando a cabeça dele para trás e beijando sua boca com volúpia.
Diante dessa visão espetacular e do arrepio que lhe subiu pela espinha dorsal, resolveu arriscar:
— Desculpe, sei que nem ao menos nos apresentamos, mas queria te convidar para subir mais uma vez. — falou Duda, sugerindo algo sem sentido e digamos até inconveniente.
Ainda bem que ela não sugeriu a cena da poltrona. Imagina?! Ainda reina um pouco de bom senso dentro deste ser.
— Subir pra onde?
— É minha filha, para onde você quer subir? — quis saber a boa senhora que ainda estava ali parada feito estátua com as duas mãos na cintura.
— Para o último andar. — explica ela sem graça, sentindo as bochechas arderem. — Para podermos conversar um pouco mais enquanto subimos, e mais um pouco quando descermos e, assim, ter uma chance de nos conhecer melhor… Digo, só eu e você — explicou para o pedaço de mau caminho que não estava acreditando no que ela acabara de sugerir.
— Você é maluca? — Ele ainda se deu o trabalho de fazer a pergunta.
— Não meu filho, ela não é maluca. Mas está arrastando uma asa pro seu lado que até cego consegue enxergar. E se me dão licença, vou descer. Boa sorte, minha filha, que o moço vale a pena. — disse a senhora, saindo do elevador
— Ah, obrigada. — sorriu incrédula por sua sacada rápida.
Será que está tão óbvio assim? — questionou Duda, encabulada.
Diante dessas investidas arrisco dizer que até o rapaz que fica olhando as filmagens da câmera de segurança, já sacou o mole que você está dando pro bonitão sensual.
— E você está participando do congresso ou está procurando alguém?
— Procurando alguém? — pergunta sem entender. — Olha só, eu não mordo nem sou maluca, apesar de parecer. Não sei explicar — Duda corou diante de suas próprias palavras — esse meu desejo incontrolável de te conhecer. Algo dentro de mim pede para saber mais de você. Pronto, falei. — confessou sem graça!
— Estou atrasado. Tem gente me esperando na recepção. Bom dia para você. — respondeu, não dando a mínima bola para as revelações de Duda.
— Espere! — Ela o segura pelo braço. Sua pele ficou toda arrepiada com aquele simples toque. — Cinco minutos é o que te peço. — Ela junta as mãos em forma de apelo. — Quem sabe esses cinco minutos podem mudar radicalmente a sua vida… e a minha?
Gente, onde foi parar a noção dessa pessoa, pelo amor de Deus?
— Você só pode ser uma desmiolada. Não é melhor ir direto ao ponto? O que você quer saber? — perguntou o moço levemente irritado.
— Eu quero saber tudo: quem é você, seu nome, quantos anos você tem, de onde você é… Quero te conhecer como nunca quis conhecer alguém antes. E não me pergunte o porquê, é coisa do coração. — sorriu cheia de sinceridade. — Posso apertar o 13º andar?
Ele a olhou nos olhos questionando tudo aquilo, mas, por incrível que pareça, balançou a cabeça positivamente.
— Sério? — vibrou satisfeita. — Puxa, estou até sem graça em dizer e você pode não acreditar, mas gosto de você.
Essa, definitivamente, não é Duda. Ela é uma médica de respeito, séria e reservada. Não costuma fazer declarações a um estranho de uma maneira tão atirada assim. Talvez por isso esteja solteira há tanto tempo.
— Gosta de mim? Você nem ao menos me conhece ou conhece? — perguntou desconfiado enquanto o elevador subia.
— Obviamente que não te conheço. Mas quero muito conhecer e sei que estou me passando por louca ou coisa parecida. Estou agindo com o coração, entende? E minha razão deve ter pulado fora para não morrer de vergonha. Sou a Duda, e você? — Ela finalmente se apresenta a ele.
— João.
— Lindo nome. Sou oftalmologista e estou participando do congresso. E você, o que faz por aqui?
— Olha só, isso tudo é muito estranho e você há de concordar comigo. Não me leve a mal, mas tem certeza de que você não sabe quem eu sou? Seria mais simples se falasse de uma vez e a gente resolveria a situação de uma outra maneira.
— Você é o João. — O moço lindo do elevador! — devolveu com a espontaneidade de uma criança. — É tudo o que sei sobre você… Por enquanto.
— Não quero parecer arrogante, nem antipático… De verdade, seria melhor se você falasse de uma vez o que quer. — insistiu ainda não convencido. — É uma foto? Se esse for o problema, podemos tirar quantas fotos você quiser.
— Fotos? — perguntou surpresa. — Nem tenho máquina fotográfica aqui comigo. — Ela mostra as mãos vazias segurando seu crachá de identificação do congresso. — De onde você tirou essa ideia? Olhe aqui. — Ela apontou o crachá para ele. — Como pode ver sou a Duda e estou participando do XXI Congresso Estadual de Oftalmologia. Viu?
— Ok… Chegamos ao último andar. Vamos descer agora?
— Já? Nem conversamos direito. Não sei o que você faz, onde você mora, se é casado, solteiro ou enrolado. Ou se precisa fazer exame de vista.
É isso! Está possuída e alguém precisa exorcizá-la urgentemente.
— Eu preciso descer. Tenho compromisso e estão me esperando lá embaixo. — argumenta, demonstrando impaciência e se controlando para permanecer educado.
— Você pode dizer que o elevador emperrou ou que teve um ataque de pânico
— Duda de Eduarda, imagino.
As portas do elevador se abrem e Duda agradece aos céus por não ter entrado ninguém para estragar aquele momento. Ela não aguentaria outra vovozinha a encarando com cara feia.
— Não. Duda de Duda mesmo. Papai estava embriagado quando foi me registrar. O coitado mal conseguia ficar de pé de tão bêbado e falou qualquer coisa pro rapaz do cartório, que entendeu errado o que ele disse e acabou me registrando como Duda.
Nisso as portas se fecharam e o elevador começa a descer, para seu desgosto.
— E como era para ser seu nome?
— Durdalina.
— Caramba! — Ele ri pela primeira vez e ela sente seu coração aquecer com aquele sorriso. — Ainda bem que ele entendeu errado.
— Nossa, nem me fale. Mando presente de natal para o tabelião todos os anos como forma de agradecimento. Já imaginou, carregar esse nome pelo resto da vida? Ninguém merece!
Ele ri novamente e se mostra mais relaxado diante dessa cena absurda.
— Puxa, já chegamos? Como é rápido este elevador.
— E então, vamos sair antes que alguém o chame? — perguntou el bonitón se encaminhando para a porta.
— É que ainda não sei nada de você. — De repente surgiu uma ideia genial. — Você poderia ir ao jantar comigo? Estou sem acompanhante.
— Uma moça bonita como você não tem acompanhante para jantar? Está de brincadeira, não é?
— Obrigada pelo “bonita”. Adorei. — sorriu toda derretida com o elogio. Fazia tempo que não ouvia um desses.
— Adoraria te acompanhar, mas, como disse, tenho compromisso.
— Namorada?
— Não.
— Esposa?
— Não, não.
— Mãe?
— Não.
— Filhos.
— Também não.
— Amigos?
— Hum, hum.
— Trabalho?
— Sim, tenho compromisso de trabalho.
— Está vendo! Em poucos segundos descobri que você não é casado, não tem filhos e tem um trabalho que está empatando de sairmos para jantar.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Espontânea?
— Devo confessar que um lado da minha personalidade se aflorou quando te viu. Mas, não se preocupe que não sou bipolar. — acrescentou rapidamente. — Geralmente sou mais reservada que isso. — De repente, teve uma ideia. — Será que você não pode faltar ao trabalho só por hoje? Poderia ligar para o seu chefe e dizer que aconteceu um imprevisto ou que não está se sentindo bem. Que tal? Assim você iria ao jantar comigo e se divertiria bem mais que trabalhar. Tem cada médico patético em cenas lamentáveis. É garantia de boas risadas.
Não acredito no que acabo de ouvir. Alguém tem que dar um “setocômetro” para essa garota.
— Impossível cancelar meu compromisso. Eu adoro meu trabalho.
— Certo. — resmungou admitindo sua derrota. — Então aproveite seu trabalho, seja ele qual for… — desejou desanimada. — Posso pedir uma última vez? Juro que é a ultima.
— Pedir o quê?
— Vamos até o 10º andar e voltar? É rapidinho.
— De novo?
— Até 5º então. Você só me enrolou e não me contou nada a seu respeito. — reclamou fazendo cara de zangada.
— Duda, não sei quem é mais maluco aqui, eu ou você. Mas, vamos lá.
— Eeeeeh! — vibrou, levantando o braço timidamente! E sem perder tempo, apertou o botão no painel do elevador. — Quem sabe eu te convenço a faltar ao trabalho e me acompanhar no jantar. — diz tentando fazer charme.
— Não posso cancelar meu compromisso porque sou músico. Tenho um show marcado hoje à noite em uma cidade próxima daqui.
— Você é músico? Que bacana. E o que você toca?
— Não toco, eu canto. Quer dizer, toco alguns instrumentos, mas não no palco. Quem toca é meu irmão, que está lá embaixo me esperando.
— Seu irmão… Que legal isso.
— Desculpe a pergunta, mas você nunca ouviu falar em Periquito & Sabiá?
— Já. São dois passarinhos!
— Sim, — ele ri — são dois passarinhos. Mas, e a dupla sertaneja Periquito & Sabiá, nunca ouviu falar?
— Não. Vocês são famosos?
— É, até que somos.
— De ir a programas de TV e tudo?
— Sim.
— E vocês já gravaram algum CD?
— Vários.
— E você é o Periquito ou o Sabiá?
— Sou o Sabiá.
— Nossa! — exclamou admirada! Duda nunca tinha ouvido falar em vocês. — Sou muito desligada para essas coisas. Na verdade, não tenho tempo de ouvir rádio, ver TV e viver como uma pessoa normal. Acho que, por isso, não te reconheci.
— Não tem problema. — afirmou sorrindo e mostrando seus dentes tão brancos que qualquer dentista ficaria com inveja.
— Quer dizer que estou andando de elevador com uma celebridade? Uau, hoje é meu dia de sorte!
— Não sou celebridade. Sou apenas um cantor.
— Ah, não seja modesto. Só porque eu nunca ouvi falar em você não significa que não seja uma celebridade.
— É que não gosto deste rótulo. Sou um cara simples demais para ser uma celebridade.
— Por isso que você pensou que eu queria tirar uma foto?
— Sim. Sempre uma fã ou outra que consegue driblar os seguranças e entrar no hotel para tentar uma aproximação.
— Sério? Você é tão assediado assim?
— Somos. — disse um tanto sem graça. — E fiquei desconfiado achando que você fosse me atacar ou algo parecido. — Ele riu.
Até que deu vontade! — pensou Duda.
— Depois do show você vai voltar para este hotel?
— Sim. E amanhã cedo vamos para Goiânia, temos outro show lá.
— Se quiser contar as estrelas do céu, ouvi dizer que a sacada do apartamento 1208 é maravilhosa para isso.
— 1208?
— É.
— Contar estrelas do céu dá verruga, moça.
— Eu sei, mas quero correr o risco e aposto que você não vai se arrepender de ficar com uma verruga imensa na ponta do nariz. — arriscou.
Ela o convidou para ir ao seu apartamento? Assim sem ficar vermelha de vergonha ou gaguejar? E quanto a esse xaveco falando de verrugas? Francamente.
O que o desespero para beijar na boca não faz com uma mulher.
— Foi um prazer andar de elevador com você, Durdalina. — diz ele assim que a porta do elevador se abre, pela terceira vez, já de volta ao térreo.
— O prazer foi meu, João Sabiá. — E acena com a mão quando ele sai em direção à recepção do hotel, enquanto ela fica parada dentro do elevador tentando lembrar para onde tinha que ir.

Horas mais tarde, Duda se encontra sentada em uma mesa com cinco colegas, sendo três homens e duas mulheres, tentando comer alguma coisa antes de morrer de tédio. Todos eles são casados e todos são uns sem-vergonhas. Os homens, depois de umas cervejas, tentavam arrastar qualquer uma de suas colegas para seus apartamentos usando de piadinhas com duplo sentido, totalmente sem graça.
No meio do segundo prato, Duda toma a decisão de voltar para seu quarto. Primeiro porque já não suportava mais aquela cena e, segundo, porque não conseguia parar de pensar no bonitão do João Sabiá e em todas as bobagens que falou para ele.
Durante o resto da tarde, não parou de pensar em como foi atirada, ousada e na forma como se insinuou para ele, como se fosse uma mulher qualquer e ele o último homem do planeta. Seu rosto chegava a queimar de tanta vergonha.
O que será que ele deve estar pensando de mim? Que sou uma maluca, desmiolada? — Perguntou-se enquanto o elevador subia em direção ao seu andar. Bem, se for só isso até que estou no lucro.
Chegando em seu quarto ela se jogou na cama e ficou algum tempo olhando para o nada, pensando em João. Agora que tudo passou, ela se pergunta de onde tirou coragem para falar todas aquelas coisas, de ser insistente, de chamá-lo para andar de elevador.
Que absurdo… Que vergonha, que vergonha! — Lamenta-se em pensamento.
Que atração forte foi aquela que sentiu por ele? Nunca havia sentido algo assim antes. Foi forte demais, como uma onda gigante do mar que vem e arrebenta na praia. Ela foi totalmente dominada por aquela atração e não conseguia mais tirar João de seus pensamentos.
De repente, teve uma ideia. Ligou o computador e começou a pesquisar tudo sobre a dupla Periquito & Sabiá ou seria Sabiá & Periquito, já nem lembrava direito. Digitou essas duas palavras no Google e se surpreendeu com a enxurrada de informações que apareceu em sua frente. Depois fez uma outra busca só com o nome de Sabiá, para saber mais sobre aquele homem encantador. E ficou lendo sobre ele por horas a fio até que, de repente, ela foi interrompida por batidas na porta.
Verificou o relógio. Já passava das três da madrugada. Ela não está esperando por ninguém e, além do mais, está de pijama, quer dizer, uma camiseta gigante, com dizeres I ♥ my cat, que comprou quando foi à Nova York ano passado. Duda ficou com preguiça de sair da cama e atender a porta, mas bateram novamente e, por fim, decidiu ver quem era. Pode ser que fosse uma de suas colegas tentando escapar de algum bêbado sem noção e veio pedir por socorro.
Ela abre apenas uma fresta da porta e na hora sente seu coração bater descompassado.
— Você veio! — Duda bate palminhas de alegrias.
Que ridículo! Achei que voltaria ao seu estado normal. Digo, uma mulher adulta e sensata.
— É aqui que se conta estrelas? — pergunta João, apoiado no batente da porta com um olhar que a deixou tonta e constrangida de tão forte e intenso.
— João, você é famoso de verdade. — conta tentando não cair nas armadilhas daquele olhar e dando passagem para ele entrar no quarto. — Sei tudo sobre você. Ouvi suas músicas e até comprei um CD pelo site oficial. Não é incrível?! Não vejo a hora de receber e pôr para tocar no meu carro. Prometo que, daqui para frente, só vou ouvir Periquito & Sabiá, já virei sua fã. Mas que nome engraçado esse. Não tinha outro melhorzinho não? Periquito & Sabiá… Quanta criatividade!
— Você não existe. — O bonitão de cabelos molhados e barba por fazer, ri com gosto de seus comentários.
O cheiro de banho recém-tomado dele tomou conta do ambiente e desconcertou Duda.
— Olha só, já sei cantar o refrão de uma de suas músicas. Quer ouvir? — pergunta rapidamente tentando manter a calma.
— Quero.
— Certo. Mas para isso preciso de uma taça de um qualquer, você aceita uma também?
— Seria perfeito.
— Então, vamos pedir. — disse, pegando o telefone feliz da vida.
Enquanto liga para o serviço de quarto e pede a garrafa de vinho e duas taças, Duda vasculha a nécessaire atrás da sua escova de cabelo, sem conseguir encontrá-la… João Sabiá se diverte com suas cenas que mais parecem uma peça de teatro bem tosca.
— Estou procurando minha escova de cabelo. — justifica-se diante de seu olhar interrogativo. — Como foi o show?
— Foi lindo demais. Todo mundo cantando as músicas do último CD. Alguns fã-clubes estavam presentes. Muito legal mesmo.
— Será que um dia eu vou conseguir ir a um show seu?
— Vou adorar vê-la na plateia.
— Jura? Vocês já se apresentaram em São Paulo?
— Várias vezes.
— É mesmo? — pergunta admirada por estar conversando com alguém tão famoso e ao mesmo tempo tão simples. — E quando vai ser o próximo show para eu poder te ver?
— Em São Paulo?
— Sim.
— Não tem nenhum marcado para os próximos meses. Dois meses atrás fizemos um grande show no Credicard Hall. Foram 3 apresentações e todas estavam lotadas. O público de São Paulo está sempre presente.
— Puxa, que pena! Quero muito te ver cantando… A porta. Você atende pra mim, por favor?
João se dirige à porta para receber o vinho.
— Achei! — gritou com a cabeça enfiada debaixo da cama e o traseiro virado para lua! Uma posição nada apropriada, diga-se de passagem, para quem está na presença de um estranho, apesar de ele ser famoso.
— O que você achou? — Quis saber Sabiá, caminhando em sua direção, segurava o vinho em uma das mãos e as duas taças na outra.
Duda o observou maravilhada. Essa é daquelas cenas para se guardar na memória pro resto da vida. Vai servir para animar suas solitárias noites de sábado, enquanto o resto do mundo se diverte nas baladas.
— A escova. Vou precisar dela. — afirmou recuperando-se da visão.
— Posso te servir o vinho?
— Sim.
— Vamos brindar? — sugeriu João.
— A quê? — perguntou segurando a taça de merlot de pé diante dele.
— Ao encontro mais maluco de todos os tempos.
— A esse encontro maluco! Tim-Tim… — bebeu um gole generoso de vinho para se acalmar. Duda estava super nervosa. Não esperava que ele viesse e agora que o via como um cara famoso, não sabia ao certo como se comportar. — Sente-se aqui nesta cadeira, vou mostrar que sei cantar o refrão de sua música. — ordenou, puxando a cadeira que fazia par com uma mesinha.
— A senhora é quem manda, Dona Durdalina. — brincou João, acomodando-se na cadeira, parecendo estar à vontade.
Duda segura o cabo da escova e o faz de microfone. E assim começa o show:
“É o amooooooor. Que mexe com minha cabeça e me deixa assim. Que faz eu pensar em você e esquecer de mim. Que faz eu esquecer que a vida é feita pra viveeeeeeeer.”
— Vamos lá! — Pede empolgada — Comigo.

“É o amoooooor. Que veio como um tiro certo no meu coração. Que derrubou a base forte da minha paixão. Que fez eu entender que a vida é nada sem vocêêê.”

— Quem gostou levanta a mão e bate palmaaaa! — diz rindo, com uma das mãos apontada para o alto. — Estou te imitando. Vi um videozinho na internet onde você falou assim em um show.
João Sabiá está as gargalhadas.
— Gostou? — perguntou ela mais uma vez saboreando o vinho.
— Adorei. Mas essa música não é nossa.
— Como não? Você estava cantando essa música. Eu vi.
— Estávamos homenageando uma das duplas sertanejas que mais admiramos, Zezé de Camargo & Luciano. Essa música é deles.
— Sério?! Eu me esforcei tanto para aprender uma música sua, quando, na verdade, nem é sua. — Lamentou decepcionada. — Eu queria impressioná-lo, pelo visto, não deu muito certo.
— Mas esta música é um clássico da música sertaneja! Você nunca ouviu? — indagou admirado com a falta de conhecimento musical de Duda.
— Acho que não. Se já ouvi nunca prestei atenção. — Justificou, sentindo-se um pouco incomodada com sua ignorância musical. — Para ser honesta, não sou muito ligada em música. No meu carro só toca a CBN.
— Então você é uma pessoa muito bem informada dos acontecimentos mundiais.
— Acho que sou. Puxa, fiquei triste agora. — comentou ainda decepcionada. — Achei que estava abafando.
— Posso cantar uma para você. Se quiser, claro. — sugeriu João.
— Claro que quero! — Sorriu feliz com a surpresa. — E como vai ser isso? Onde eu sento? — perguntou recuperando a empolgação.
— Fique aí onde está que eu canto daqui. — disse meio sem jeito.
— Ah, mas não mesmo! A música é lenta ou agitada?
— É uma rancheira.
Duda o olha com cara de quem não entendeu e ele explica docemente:
— Rancheira é um estilo de música, com um ritmo mais animado. E nós misturamos um pouco de folk também. O resultado é bom.
— Então vamos dançar!
— Eu não sou muito bom nisso.
— Nem eu. Mas não posso perder a chance. Você canta e nós dois dançamos. — Faz uma pausa enquanto entorna toda a taça de vinho. — Só que para isso preciso mudar de roupa e colocar um salto, você é muito alto. Minha cabeça bate no seu peito… Vai ficar desproporcional e eu preciso de um salto! — Anuncia eufórica com a ideia de dançar com ele. — Vire para o lado e não olhe, que vou trocar de roupa. — ordenou, dirigindo-se para o armário.
— Como? — pergunta com uma cara de surpresa encantadora. — Você, definitivamente, é uma maluca de pedra.
Ela arranca a camiseta e vasculha a mala atrás de seu vestido vermelho e das sandálias douradas que trouxe para usar no jantar desta noite, mas que acabou não usando.
— Você não está olhando não, né? — pergunta enquanto veste o vestido numa velocidade impressionante. — Agora só faltam as sandálias e… Pronto. AINDA NÃO! — Gritou a tempo. Catou um hidratante americano com um cheirinho de morango e espalhou um pouquinho no pescoço e nos braços. Só para se prevenir. Já ouviu falar que uma mulher prevenida vale por duas? Pois é! — Mais um segundinho e… Pode olhar. Como estou?
— Linda. Linda demais! — elogia, ficando em pé diante dela.
Duda sorri com o que ouviu. Elogios fazem muito bem ao seu ego inseguro. Duda não é uma mulher que possamos chamar de top model, mas é muito bonita e acho que ouviria elogios como esse com mais frequência, se saísse de casa, é claro!
— Viu, agora estou a sua altura. — diz, referindo-se ao salto de sua sandália.
— Está linda e não precisava nada disso.
— Então pode começar. — Fala aproximando-se dele. — Com licença. — pediu, jogando os braços envolta de seu pescoço, um tanto nervosa com a proximidade.
Que perfume é esse?! -— Pensou num súbito impulso de afundar seu rosto no pescoço dele. Mas segura a onda e tenta seguir os passos da dança.
Uma pra lá, outro pra cá! — Tentava manter-se concentrada.
— Moça, você tem me surpreendido demais. — contou enlaçando-a pela cintura.
— Tenho?
— Muito. No começo achei que você fosse uma fã querendo se aproximar de qualquer forma, armando uma peça ou algo assim. Depois deduzi que você era uma doida desmiolada. — brincou. — Mas aí, seu jeito espontâneo e sincero foi me intrigando e me fez querer saber mais de você… E agora, aqui, vendo você tão à vontade diante de mim, como se eu fosse um João qualquer e não o Sabiá… Entende o que quero dizer?
— Pra mim você é apenas o João, o moço bonito do elevador, que me deixou encantada.
— E o que você queria tanto saber de mim? — perguntou apertando a cintura de Duda.
Senhor, dai-me autocontrole! Mas tem que ser agora! — Pensou Duda, tentando se manter indiferente ao perfume de João, à barba por fazer roçando, esporadicamente, seu rosto, à proximidade do corpo másculo, às mãos em sua cintura, pressionando-a levemente.
Não sei se vou conseguir me controlar por muito tempo. Isso é covardia com uma mulher que está solteira há tanto tempo.
— Ei, achei que você fosse cantar pra mim e, no entanto, estamos aqui dançando sem música. João, você está me enrolando. — protestou fazendo cara de zangada!
— Desculpa, moça. Seu pedido será atendido agora mesmo.

E João Sabiá começou a cantar. Sua voz saiu rouca devido ao show daquela noite, ainda assim, linda e suave, bem baixinho no ouvido de Duda:
— Sou parte de você. Vivo para te fazer feliz. Nada mudará o que sinto por ti. Nanaa Nanaaaa. Meu mundo fica completo quando você está aqui. Me diga que será sempre assim. Nanaaa Naanaaaaa.
— Canta comigo? — Convida num sussurro, quase tocando a orelha de Duda com os lábios.
A pele de Duda se arrepiou com o calor da voz de João. Ele a apertou, puxando-a para mais perto, como se fosse possível, pois estavam totalmente colados um no outro.
— Eu sou parte de você. Vivo para te fazer amar…
— Para te fazer feliz… — corrige ele.
— Ah, desculpe. — Duda sorri com cara de levada.
— De novo.
— Para te fazer feliz. Nada mudará sem você…
— Nada mudará o que sinto por ti. — ele a corrige novamente.
— Acho melhor você cantar e eu ficar calada, só dançando. Estou mudando toda a letra da música, além de ser muito desafinada.
— Mais uma vez. Cante comigo. — pediu com sua voz rouca, não se dando por vencido.
Meu Deus, está me ouvindo? Mande logo todo o estoque de autocontrole que aquele que o Senhor mandou agora há pouco, já era. Essa voz no pé do meu ouvido me desestabiliza! — pediu em pensamento, respirando fundo, tentando manter sua boca no lugar e não na boca de João.
— Nada mudará o que eu sinto por ti, amoooor…
— Durdalina, — disse João seriamente, fitando-a nos olhos — você canta mal pra caramba!
— Kákákááá… — Duda ri e se joga na cama. — Como cantora sou uma ótima oftalmologista.
— Tomara que seja mesmo. — o bonitão faz uma pausa para fitá-la nos olhos com seu olhar intenso e desconcertante. — Você existe? É real?
— Eu acho que sim, mas preciso dizer que nunca em minha vida eu fiz o que estou fazendo contigo. Normalmente sou careta, tímida e sem atitude com os homens. Acho que já te falei isso hoje. — Confessou.
— Você, tímida? Sem atitude com os homens? Quer enganar a quem, Durdalina?
— Sou tímida sim. Essa que você está conhecendo não sou eu. Não mesmo.
— Não tente disfarçar. Confessa que você usa desse seu lado encantador para deixar os homens fascinados por você.
— Na verdade, acho que fui possuída por algum espírito que se apaixonou por você e está me usando para tentar tirar uma casquinha.
João Sabiá rindo, deita-se ao lado dela e, juntos, riram um bocado daquela situação surreal.
— Eu te convidei para andar de elevador. — lembra rindo de sua postura. — Que loucura. E o pior, você aceitou!
— E me convidou para jantar num congresso de médicos. Acho que nunca recebi tantos convites bizarros em uma só ocasião antes.
— Ai, que vergonha de você… — Duda ri timidamente, tapando os olhos com as mãos.
De repente, ele fica sério, apoia-se no braço esquerdo e com o rosto a centímetros de distância do dela, diz:
— Dona Durdalina, de onde você veio e o que está fazendo comigo?
— Eu vim de São Paulo. Moro lá.
— Você é a maluca mais linda que cruzou meu caminho. Não paro de pensar em você desde…
— Desde?
— Shiiiiiiii! — pediu com seu dedo indicador nos lábios de Duda.

E a beijou com paixão.

*****

Um raio de sol entrou pela janela e pousou justo no seu olho esquerdo, fazendo-a acordar de um sonho bom. Lentamente, Duda abre os olhos e vê que o quarto está todo bagunçado: provas de algo aconteceu estão espalhadas por todos os lados.
Então não fora um sonho, pensou.
Imediatamente ela se senta na cama e, olhando com mais cuidado, vê seu vestido vermelho jogado próximo a janela. As sandálias jogadas junto ao pé da cama, sua calcinha com estampa de oncinha mais adiante. A garrafa de vinho vazia jogada no chão, fez uma mancha escura no carpete; as taças em cima da mesa denunciam que alguém esteve ali com ela; duas embalagens de preservativo na mesinha de cabeceira a deixam apavorada.
Imediatamente, ela olha por de baixo do lençol e constata que está completamente nua.
— Ainda bem que eu depilei minha virilha para esta viagem. — comentou baixinho.
Estremecendo de euforia, foi lembrando-se dos momentos maravilhosos que passou ao lado do deus grego sertanejo: a massagem que ele fez em seus pés ao descalçar suas sandálias; a delicadeza e a urgência com que tirou seu vestido; as músicas que cantou em seu ouvido, misturando elogios e palavras soltas sem nexo; a força com que apertava sua pele fazendo-a estremecer de desejo; seu olhar… Ah, aquele olhar intenso e cheio de desejo que a faz perder completamente o juízo em segundos. Com toda certeza foi a melhor noite de amor de toda sua vida. E olha que já teve muitas… Só que nenhuma delas chegou perto do que viveu com o bonitão.
João Sabiá se revelou um homem que transpira masculinidade, sexualidade, virilidade e é doce, carinhoso, romântico, tudo ao mesmo tempo e na dose certa.
— E agora? Eu gostei e quero mais. — disse baixinho, olhando o quarto estava vazio.
Em cima da outra mesinha de cabeceira, avistou um papel dobrado e rapidamente rolou pela cama para apanhá-lo.
João Sabiá deixara um bilhete!
Com o coração disparado e as mãos tremendo, desdobrou o papel para ler:

Dona Durdalina,
Foi mágico contar estrelas com você. Aqueles minutos de subida e descida no elevador, de alguma forma, mudaram a minha vida. Você estava certa!
Vou levar comigo o perfume dos seus cabelos, a suavidade da sua pele e as lembranças dessa noite maravilhosa.
Beijos em você, Duda Maluca.
JS
P.S. Se aparecer alguma verruga, me escreva: jsabia@hotmail.com.br

Ele foi embora sem se despedir, mas deixou um bilhete. Isso é bom ou ruim?
Num impulso, abriu o notebook e mandou uma mensagem para ele:

Para: jsabia@hotmail.com.br
De: durda.lina@hotmail.com
Re.: Verrugas, muitas verrugas.

João,
Você não vai acreditar. Estou infestada de verrugas! É sério? Tem algum remédio para me indicar? Preciso urgentemente me livrar delas.
Conheço um consultório médico que fica na Av. Joaquim Nabuco, 12074 em São Paulo, mas sei lá… Não me parece nem um pouco confiável.
Beijos com saudades,
Duda, a verruguenta!

Pronto, apertei a tecla ‘enviar’, agora não tem mais volta. Será que ele vai responder? — Angustiou-se.
Mas ficar ali pelada, não resolvia nada. Por isso, tratou de tomar uma ducha e arrumar a mala. Tinha que voltar para São Paulo e seguir vida normal.
Vamos pensar assim: Se ele responder, ótimo. Se não responder… Eu fundo um fã clube e me torno uma seguidora fanática, dessas que choram, se descabelam e jogam calcinhas para ele durante os shows.
Não, muito ridículo.
Posso comprar todos os CDs e DVDs, colar posters dele no meu quarto e viver uma paixão platônica. Não, adolescente demais.
Posso esquecer e fazer disso tudo uma história engraçada para contar no encontro anual de formandos — turma 1999. Vou contar um monte de vantagens e me achar a tal, enquanto minhas amigas não pegaram ninguém interessante no último ano.
É uma possibilidade.
A cabeça de Duda estava a mil.
— A verdade é que não sei de nada. Sei que gosto dele e pronto. — disse, para ela mesma, enquanto tentava fechar a mala. — Por que a mala nunca fecha quando temos que voltar para casa? Ela veio assim e vai ter que fechar! — exclamou mais alto do que gostaria. Sentou em cima da mala e tentou puxar o zíper, conseguiu a proeza de estourá-lo.
— Merda! Droga! Mala idiota! Que raivaaaaaaaaaaaa!!! — esbravejou zangada. — Agora tenho mais esse problema para resolver. Já sei, vou ligar para a recepção.
Pegou o telefone e discou o número 9.
— Boa tarde, em que posso ajudá-la? — cumprimentou a recepcionista do hotel.
— O zíper da minha mala estourou e não tenho como fechá-la. Preciso de ajuda.
— O hotel dispõe de uma loja aqui na recepção que vende malas, entre outras coisas. A senhora pode ligar ou ir até lá. — informou a recepcionista, toda simpática.
— Não tem outra sugestão?
— Não senhora.
— Nenhumazinha?
— Lamento, senhora.
Senhora, senhora… Eu não sou senhora! — Pensou irritada.
— Obrigada pela informação.
Agora sou obrigada a ir até a loja e comprar outra mala. Vou perder meu ônibus.
Pegando a bolsa, saiu do quarto rumo ao elevador. Um pensamento cruzou seu cérebro: sua mão segurando o bíceps muito bem definido de João Sabiá. E um calor lhe subiu pela espinha.
— Isso não estava nos meus planos. — comentou baixinho. — Preciso parar de falar sozinha.
O elevador para e abre as portas.
— Ora, ora… Até que enfim eu te encontrei. Estou curiosa para saber se você fisgou aquele peixão? — quis saber a doce e curiosa vovozinha.
— Ah, olá. Tudo bem com a senhora? — cumprimentou Duda, entrando no elevador e apertando o botão T. — Nos encontramos no mesmo elevador. Coincidência, não acha?
— Conte-me tudo, minha filha! — ordenou a senhora.
— Contar o quê? Não tenho nada para contar. — disfarça.
— Como não tem? Então eu não vi você se oferecendo para o bonitão?
— A senhora achou isso mesmo? — indagou Duda, preocupada com sua imagem.
Ai, que papelão que eu fiz! Todo mundo no hotel já deve estar sabendo, pensou, sentindo-se corada.
— Conseguiu ao menos o telefone dele? — insistiu tirando Duda de seus pensamentos.
— A senhora… assim… por acaso, comentou com alguém?
— Só com a garota da lojinha. Eu e ela nos tornamos amigas.
— Lojinha?
— A que tem aqui no hotel, sabe?
— Ah… Só para ela?
— Não me enrola! Quero saber dos detalhes.
Essa doce senhora, não é assim tão doce. É uma curiosa, doida atrás de uma fofoca, isso sim.
— Não tenho “detalhes” para contar. Imagina! Quem a senhora pensa que eu sou?
— Minha filha, é uma ofensa sua achar que me engana. Tenho oitenta e quatro anos de muita experiência, sabia?! Vamos, fale logo! — exigiu, muito séria.
De repente, Duda ficou com medo de levar uns tapas daquela senhora, feito menina levada apanhando da avó.
— É… Tá bom. Eu fiquei com ele. — confessou, meio que sob pressão. — Ele foi para o meu quarto de madrugada e dormimos juntos.
— Mas que sem-vergonha! — exclamou com as duas mãos na cintura.
— Eu? Ué, achei que a senhora fosse gostar.
— E gostei. Estava na torcida para que você conseguisse. E me conte mais, quero saber dos detalhes, dos detalhes… Como ele é na cama?
— Minha senhora! Isso lá é coisa que se pergunte?!
— Mas é a melhor parte.
— Pois isso eu não vou te contar. É muito particular para falar para os outros.
Ufa! Finalmente o elevador chegou ao andar térreo.
— Até logo. — Duda acena para a vovozinha saindo apressada do elevador.
— Minha filha, volte aqui. — chamou assim que a viu pisando firme rumo à lojinha do hotel.
Ela caminha depressa até a loja, preocupada com o horário do ônibus e também para desaparecer das vistas daquela louca.
Convenhamos, é bem esquisita esta senhora. Não deveria estar jogando bingo ou algo assim?
— Oi, preciso de uma mala tamanho médio. Qualquer uma serve. Quanto é? Vocês aceitam VISA? — metralha a atendente com perguntas, tentando resolver o seu problema e sair do hotel de uma vez por todas.
— Boa tarde. — sorri a atendente. — Temos vários modelos e marcas. Qual a de sua preferência?
— Qualquer uma serve. — disse Duda olhando para os lados, conferindo se a vovozinha não estava atrás de algum de planta espionando.
— Mas, a senhora não quer escolher? Temos vários modelos. — insiste a atendente, tentado ser simpática e não se irritar com a falta de educação de Duda.
— Tá bom. Pode ser… Aquela vermelha lá do fundo está ótima. Quanto é?
— Custa…
— É ela! — berrou a senhorazinha adentrando a loja. — Essa é a moça que te falei, florzinha. — falou para a atendente. — Lembra a história do elevador que te contei ontem à tarde? Do bonitão, lembra? Então, é ela!
Socorro! Como se faz para se livrar dessa maluca?
Duda estende o cartão para a atendente, mas ela está muda, feito estátua ouvindo a senhora bradar aos quatro ventos que Duda é uma “sem-vergonha”, como ela mesma disse.
— Você é a moça que passeou de elevador com o Sabiá?
— Eu…
— Não acreditooooo! Me conte tudo sobre ele. — suspira fundo. — Ele é lindooooooo, gostoso, suculento, vitaminado… Ai, passo mal só de pensar! Ele é meu ídolo. Adoro aqueles dois.
— É… — Isso não está acontecendo comigo, pensou Duda em desespero — Não sei nada desse Sabiá, Periquito ou outro passarinho qualquer. Eu desci o elevador com ele, só isso!
— Mentira! Ela dormiu com ele. — contou a velhinha com satisfação.
— O que? Como assim, dormiu com ele? — quis saber a atendente com um leve ar de indignação. — Como você conseguiu? Me conte que eu também quero.
— Eu… Eu… Gente, vocês são duas malucas. Não sei do que estão falando. Poderia passar o cartão e me entregar a mala, por favor? Tenho que ir embora, tenho compromisso e estou atrasada. — informou Duda chacoalhando o cartão muito próximo ao nariz da atendente.
— Daqui você não sai enquanto não contar tudo! — desafiou a moça da loja.
— Eu posso falar com seu gerente? — perguntou, mudando o tom de voz.
— Não tenho gerente. — rebateu.
— Quem é que manda nesta espelunca, então? — A essa altura, Duda já estava descontrolada.
— Não vem mudando o assunto. — interveio a velha louca — Ela dormiu com ele, dormiu com ele. Você acredita, florzinha? E agora não quer contar pra gente. Sua egoísta!
— Eu não sei do que a senhora está falando. Moça é o seguinte: ou você debita o valor da mala no meu cartão agora ou eu vou até a recepção fazer uma queixa contra você e contra esta velha maluca que devia estar no baile da terceira ou quarta idade e não pegando no meu pé. Escolhe! — guincha sacudindo o cartão, mais uma vez, na frente do rosto da moça.
— Me dá aqui este cartão? — e pega com raiva estampada no olhar. — A vista ou parcelado? — pergunta entre os dentes.
— A vista.
A atendente passa o cartão com força, descontando nele toda sua indignação, enquanto lança olhares de reprovação para Duda.
— Florzinha, ela dormiu com ele. Ela confessou.
— Minha senhora, faz o favor de largar do meu pé? Que coisa mais chata.
— Eu te apoiei. Sem minha ajuda ele não teria nem olhado para você, sua ingrata!
— Tá doida? Quanta petulância!
— Assina aqui. — a vendedora empurrou a caneta e a via do cartão para que eu assinasse.
— Pronto. Não precisa embrulhar, levo assim mesmo.
— Toma aqui a sua mala. Sua infeliz sortuda que dormiu com o Sabiá. — desabafou a vendedora, carregada de inveja.
Essa frase fez bem aos ouvidos de Duda que saiu de lá rindo. Realmente ela era uma mulher de sorte e foi assim, com esse pensamento, que voltou para casa se achando a última coca-cola do deserto.

*****

Duas semanas se passaram desde aquela noite maravilhosa com o deus grego sertanejo. Nos primeiros dias a euforia, as lembranças e a esperança de que ele a procurasse ou, pelo menos, respondesse sua mensagem, dominaram-na completamente.
A compulsão por checar e-mails de cinco em cinco minutos foi diminuindo com o passar dos dias, quer dizer, mais ou menos. Duda também decidiu parar de encher Lily, sua pobre secretária, com perguntas do tipo: “Alguém chamado João ligou para mim?”, “Algum João agendou consulta para essa semana?”, quando, certa manhã, ao desejar o costumeiro bom dia, Lily, em vez de responder o mesmo, disse automaticamente que nenhum João havia ligado, tampouco agendado consulta.
Foi a gota d’água.
— Ok. Juro que não te pergunto mais nada. — devolveu, roxa de vergonha.
Dirigiu-se para sua sala, determinada a esquecer aquela aventura de final de semana e voltar a ser uma pessoa normal. Não seria um João qualquer que iria mexer com ela daquela forma. Ah, mas não mesmo!
— Lily, — pediu por telefone assim que se acomodou em sua sala. — Peça ao paciente para entrar.
Obviamente que não sou nenhuma menina para ficar fantasiando romances. Romances só existem em livros e filmes. Sou uma mulher prática! — Pensou, sentindo uma tênue segurança em seus pensamentos.
— Doutora? — perguntou Lily, pela terceira vez.
Duda não tinha nem reparado que Lily estava na sua frente junto com a paciente.
— Desculpe, estava distraída. — justificou sem graça. — Por favor, sente-se. — disse para a paciente. — Obrigada, Lily.
Assim que a secretária saiu da sala, Duda iniciou a consulta com as perguntas de praxe. Numa das respostas mais longas da paciente, Duda perdeu-se novamente em seus pensamentos.
Estou apaixonada! Meu Deus, como fui deixar isso acontecer? — Questionou perplexa, olhando para o nada, enquanto a paciente aguardava sua resposta.
— E então, doutora? — perguntou a moça.
Tudo bem que João é bonito… bonito não, ele é lindo! E simpático, engraçado, além de beijar bem… Ai, meu Deus, que beijo aquele homem tem. Por que fui me lembrar do beijo agora?
— Doutora, a senhora está me ouvindo? — perguntou novamente a paciente, já um tanto impaciente.
E as pernas dele? Eu seria capaz de me perder naquelas pernas por uma noite inteirinha. Ah, se seria!
— Doutora Duda? — chamou a paciente, tocando-a no braço.
— Ãh? O que você disse? — Perguntou assustada, voltando à realidade. — Desculpa, não estou me sentindo muito bem. Poderia me dar licença um minuto? Eu já volto. — e saiu em direção ao banheiro que fica dentro da sua sala.
— Uma noite de amor não pode revirar minha vida e meu comportamento dessa forma. — constatou em voz baixa, lavando o rosto na pia do banheiro. — Foi só sexo. Sexo dos bons… dos melhores… Que droga! Foi o melhor sexo que eu tive até hoje. Ok. Chega! Foi ótimo, mas não justifica o meu comportamento. Agora, volte a real! — ordenou para si mesma, determinada a por um ponto final naquela paixonite maluca.
Desde que chegara, Duda não conseguiu assumir sua rotina. Seus pensamentos voltavam irrestritamente para João e tudo o que fizeram juntos. Essa não foi a primeira vez que ela “viajou” durante as consultas, com o paciente a chamando para o mundo real e tudo mais. Nossa! Muito constrangedor.
Forçava-se a se concentrar em suas atividades e, cada vez que se traía pensando nele, jogava um balde de água fria do tipo: Duda, você foi apenas mais uma de várias que devem ter passado pelos braços dele. Não se iluda. Foi bom, mas passou, ok? Agora volte para o seu consultório imediatamente!
No começo funcionou e quase chegou a sentir raiva dele e dela mesma, por ter sido tão impulsiva e imatura.
Bem, isso tudo foi até a noite de hoje, um sábado, quando Duda o encontrou novamente.
Só que desta vez foi através da tela de sua tevê.
Pulando de canal a cada dois segundos, completamente entediada por passar mais um final de semana sozinha, de repente bateu os olhos naquele olhar. Aquele olhar desconcertante e profundamente sedutor que deixa o de Robert Pattinson no chinelo. O olhar que a fez perder a razão e o único culpado de todos os devaneios que a acometeu nos últimos dias. João Sabiá estava ali em sua casa, bem diante dela, separado apenas por uma tela de plasma.
Falante, simpático, educado, distribuindo sorrisos para a apresentadora e para o público (quase todo feminino) presente, ele encantava a todas com seu jeito simples e carismático.
Ver suas expressões, seu sorriso, ouvir sua voz e tê-lo tão perto foi devastador.
Mais que depressa, Duda aumentou o volume da TV e se concentrou nos gestos, nas respostas e em todos os detalhes que partiam dele.
João não estava sozinho, seu irmão o acompanhava.
Ele apresentava uma desenvoltura tão natural ao falar com a entrevistadora, que até pareciam velhos amigos, batendo um papo descontraído. Algumas vezes, para responder as perguntas, ele olhava diretamente para a câmera. Seu olhar penetrante e intenso a fazia estremecer e Duda podia sentir que ele estava olhando diretamente para seus olhos, como se soubesse que ela o estaria assistindo.
— Ai, não me olha assim! — pediu, sentindo um frio percorrer sua espinha dorsal.
Ela não esperava por isso, por vê-lo tão de perto, por sentir novamente o peso daquele olhar. Suas emoções estavam afloradas, sua razão estava fora do comando e seu coração tomou conta de tudo.
Todo aquele preparo para exorcizar João de seus pensamentos, caiu por terra. Duda assistia à TV completamente fascinada por ele.
As cenas da noite de amor voltaram nitidamente a sua memória: o som da voz rouca de João em seu ouvido lhe dizendo coisas sem sentido; o perfume dele penetrando suas narinas; o toque suave de seus dedos em sua pele que, às vezes se intensificava, demonstrando um desejo de tê-la ainda mais grudada ao seu corpo; os beijos intensos, os beijos doces, os beijos demorados; seu olhar de satisfação ao vê-la sentindo prazer; as carícias… Tudo voltou e com muita intensidade, como se tivesse sido na noite anterior.
Seus olhos encheram-se de lágrimas e, meio desnorteada, reconheceu que estava apaixonada. Perdidamente. Loucamente. De coração e alma.
— Que merda… — gemeu baixinho diante da constatação.
Assistiu ao resto do programa, às vezes rindo do senso de humor de João, que ela tão bem conhecia, outras vezes atenta as suas opiniões e comentários muito bem colocados a respeito de assuntos gerais, que estava conhecendo somente agora.
A entrevistadora tentava de todos os jeitos explorar assuntos pessoais, mas a dupla não dava abertura e desconversava sem demonstrar antipatia. Certa hora ela perguntou para Ângelo (Periquito) se ele acreditava em amor à primeira vista. Como Ângelo respondeu numa boa a pergunta, fez o mesmo com João.
— E você, Sabiá, acredita em amor à primeira vista?
— Acredito no amor de todas as formas e acredito que ele pode acontecer à primeira vista também. É preciso estar atento, porque o grande amor da sua vida pode estar no mesmo restaurante que você, na fila do caixa do supermercado ou até mesmo dentro de um elevador e, se você não estiver atento aos sinais, pode perder uma grande oportunidade de amar e de ser feliz.
Duda gelou.
— Será que ele falou isso de verdade? Meus Deus, será que ele também sente o mesmo que estou sentindo?
Duda não sabia o que pensar. Venhamos e convenhamos, é uma coincidência grande demais ele ter falado do elevador, poucas semanas depois do tal episódio em São José dos Campos.
— Que coisa mais louca. Onde eu fui me meter? — questionou-se angustiada, abraçando a almofada com força.
Assistiu ao final do programa quase sem prestar atenção em mais nada do que eles diziam. Mas uma informação foi bastante preciosa: soube que eles têm as semanas cheias de shows e compromissos ligados à divulgação dos discos, compromissos em rádios e emissoras de TV e sobra bem pouco tempo para a vida pessoal, família e amigos.
— Talvez seja por esta razão que ele ainda não me procurou. — Poderia ser uma hipótese plausível e uma desculpa bastante aceitável para ele não ter dado sinal de vida até o momento. — Será que ele merece uma segunda chance? — riu de si mesma por achar que era ele, o badalado, o bonitão, o disputado, quem merecia uma segunda chance dela, uma “zé ninguém”. Quanta audácia!
O programa terminou e ele se despediu jogando um beijo com a mão para o público presente e para as câmeras. De imediato, ela sentiu um vazio e ficou se questionando que homem existe por trás daquele sorriso; onde ele nasceu; quais são seus valores e prioridades; onde estudou; quem é o seu melhor amigo; que tipo de comida ele gosta; onde ele mora; para qual time de futebol ele torce…
— Nada. Eu não sei nada sobre este homem e mesmo assim me apaixonei. Como isto é possível?
A essa altura já não importava mais o fato de estar falando sozinha. Ela precisava extravasar e por para fora toda sua angústia e falar sozinha foi a melhor forma que encontrou no momento.
— E agora, como faço para me desapaixonar? — perguntou, olhando para a foto de João na capa do último CD da dupla.
Duda sempre foi uma mulher independente, sensata e com os dois pés bem firmes no chão. Trabalha desde os dezesseis anos de idade. Formou-se na melhor universidade do estado, conseguiu montar seu próprio consultório e construiu uma carreira sólida em sua área. Tudo o que faz é pensado, repensado e planejado com cuidado para que nada dê errado e, de certa forma, ela se orgulha muito do seu lado metódico e certinho.
Teve apenas um namorado. Uma relação conturbada que durou, entre muitas idas e vindas, sete anos. Depois, ela decidiu que seria mais certeira em suas futuras escolhas e que nunca mais agiria por impulso, principalmente os que vêm do coração. No entanto, está sozinha há tanto tempo que acabou se acostumando com sua rotina, trabalho, amigos e se sente muito feliz assim. Aquela coisa de casar, ter filhos e viver um grande amor passou há muito tempo. Tem vivido um dia de cada vez e tudo estava bem até aquele final de semana em São José dos Campos, quando conheceu João.
E agora ela se encontra olhando para a foto dele e milhões de perguntas atravessam seu cérebro sem respostas. Sua razão diz para esquecer aquilo tudo e tocar a vida. Já o seu corpo e, principalmente seu coração, imploravam por João. Nem que fosse só por mais uma noite.
Pensou em ligar para Lis, uma de suas amigas, para conversar e desistiu logo em seguida quando lembrou que era sábado e certamente ela deveria estar se divertindo com seu namorado em algum barzinho da moda.
Vou ligar para Daniela, decidiu em pensamento. Abriu o celular e, a tempo, lembrou-se que ela está com um bebê e seria muito egoísmo de sua parte incomodá-la para falar de problemas sentimentais tão tarde.
Com exceção de suas duas amigas, não tinha mais ninguém com quem tivesse intimidade e liberdade para contar tudo o que estava acontecendo. Para completar, estava totalmente sem sono. Sua adrenalina estava a mil e deitar para dormir agora seria pura perda de tempo.
Pegou um livro e se esforçou para ler. Não conseguiu se concentrar na leitura e o deixou de lado. Voltou a zapear a TV e logo se entediou. Foi até a cozinha, abriu a geladeira e beliscou qualquer coisa. Voltou para sala e pegou uma revista, folheando-a com a cabeça longe dali, sem prestar atenção em nenhuma página. Minutos depois, foi até a varanda e se deitou na rede para admirar a vista. Aquele exercício normalmente a acalmava. Hoje, porém, não surtiu o menor efeito.
— Bem, só me resta uma opção: beber! — decidiu, levantando-se da rede.
Foi até a cozinha, abriu uma garrafa de vinho branco que estava na geladeira, pegou uma taça no armário e voltou para sala. Sem opções, sentou-se diante do computador, abriu sua pasta de fotos e ficou olhando fotografias de vários momentos de sua vida: da sua infância com seus irmãos, com amigos de colégio, da época da faculdade com Lis e Dani, das inúmeras viagens que fez ao redor do mundo, dos encontros na casa de amigos, as festas de final de ano na praia. Reviveu vários momentos felizes, recordou conversas, riu das situações engraçadas que algumas fotos mostravam. Ela se considerava uma pessoa de sorte. Tinha uma família unida, poucos e bons amigos, gostava do que fazia e não dependia de ninguém.

— Não tenho razão para me sentir triste e angustiada, pensou, olhando para uma fotografia onde ela está com seus pais em frente às Cataratas do Iguaçu.
Esse pensamento serviu de consolo e, meio sonolenta por conta do vinho, resolveu se deitar. Antes, porém, foi verificar seu e-mail. — um hábito que ela tenta desesperadamente mudar.
Assim que a caixa de entrada abriu na tela, ficou paralisada. O sono desapareceu. O efeito do álcool evaporou. Duda ficou imóvel. Sem respirar. Sem reação. Sem acreditar.
Havia um único e-mail.
O mais importante de todos.
O e-mail que tanto esperou nos últimos dias.
O e-mail de João Sabiá.
Com os dedos trêmulos, direcionou o mouse e clicou para abrir:

De: jsabia@hotmail.com.br
Para: durda.lina@hotmail.com
Re.: Consulta virtual

Dra. Durdalina,

Ultimamente não tenho me sentindo muito bem. Gostaria de saber se é possível uma consulta virtual, visto que estou cada dia me sentindo pior e sem tempo algum para ir ao médico.
Vou te contar os meus sintomas:
1. Ando disperso e com o pensamento longe;
2. Sinto meu coração comprimido, angustiado e suspeito que seja saudade em excesso;
3. Todas as noites sonho que estou dançando com uma moça (e é sempre a mesma), ela canta uma música num tom muito desafinado e, ainda assim eu quero continuar sob aquela tortura, ouvindo sua doce voz esganiçada;
4. Quando fecho os olhos, vejo um sorriso espontâneo e contagiante, que me faz sorrir também. Inclusive, estão me chamando de maluco por andar de olhos fechados e sorrindo sem motivos;
5. Sempre que estou diante de um elevador, tenho a sensação de que vou encontrar uma moça (a mesma do sonho) e ela não vai me deixar sair de lá, sem antes ir até o último andar do prédio, o que me apavora muito. É que sou acrofóbico;
6. Todos os dias antes de dormir, eu penso: por onde anda essa moça? O que ela tem feito? Ela pensa em mim da mesma forma como tenho pensado nela? São muitas perguntas sem respostas;
7. E, por último, sinto, ou penso sentir, já nem sei mais… O cheiro dos cabelos dessa moça. É um perfume suave que me deixa cheio de saudades e com vontade de acariciá-los novamente.

Meu irmão diz que isso tem nome: paixão das “brabas”. O que você acha? Será que tem cura? ;-)
Uma oftalmologista resolveria meu problema ou devo procurar uma psicóloga?

Beijos,
JS

Duda se levantou, foi até o banheiro e olhou-se no espelho. Seu rosto exibia uma expressão de felicidade indescritível. Seus olhos brilhavam, sua boca estava seca, um sorriso plantou-se em seus lábios. Ela queria gritar, gritar, gritar…
— Devo estar sonhando. — falou baixinho para o espelho. — Só posso estar sonhando.
Lavou o rosto várias vezes e voltou para o computador. O e-mail continuava aberto na tela, com o mesmo texto, as mesmas palavras. Era real. Eram os sentimentos de João traduzidos em palavras diante dela.
— Não estou sonhando. — disse, passando seus dedos na tela numa tentativa de sentir aquelas palavras. — João me escreveu. O meu João me escreveu. Ele pensa em mim, ele… ele… Ai, meu Deus… Ele diz aqui, bem aqui… que está apaixonado por miiiiiiim! – soltou um gritinho abafado.
Duda leu e releu o e-mail por diversas vezes. Imprimiu em papel e andou a casa inteira com ele nas mãos, para ter certeza de que era real e que não estava fantasiando, imaginando (ou enlouquecendo) e vendo coisas que não existiam.
Horas mais tarde, já de madrugada e mais calma, sentou-se na cadeira do escritório para responder ao e-mail de João Sabiá:

De: durda.lina@hotmail.com
Para: jsabia@hotmail.com.br
Re.: Re.: Consulta virtual

Caro paciente João.

Realmente seu caso é grave, gravíssimo. Você precisa consultar uma médica urgente!
Diagnosticá-lo virtualmente é muito arriscado. Preciso ver, tocar, sentir (você não faz ideia do quanto preciso). Só assim poderei dizer se você tem cura e se sou capaz de curá-lo.
Te espero.

Beijos em você,
Duda.
P.S. Oftalmologista é a profissional recomendada para casos como o seu.

Inútil dizer que o domingo não passou nem por decreto.
Duda saracoteou pelo apartamento o dia todo, eufórica demais para se concentrar em alguma atividade.
— Oi, Dani. Sou eu.
Depois do almoço Duda, não conseguia mais guardar todos aqueles acontecimentos só para ela, achou que conversar com sua amiga seria uma boa forma de encontrar respostas e também de aliviar sua angústia.
— Oi, amiga. Tudo bem?
— Tudo. E minha princesinha, está bem?
— Está ótima. Neste momento ela está dormindo feito anjo e eu estou aqui igual a um zumbi de tanto sono. A danadinha está trocando o dia pela noite, acredita?
— Ai, desculpe. Liguei numa hora ruim. Vai descansar um pouco.
— Eu descansar? Tenho um mundaréu de coisas para fazer na casa e ainda tenho que ir ao mercado fazer a compra da semana.
— E cadê o pentelho do seu marido?
— Adivinha? No futebol, é claro!
— Aff! Se você não morasse do outro lado da cidade eu iria aí passar a tarde com vocês. Estou precisando conversar.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu. Estou apaixonada.
— Está o quê? — perguntou Dani, pensando ter ouvido a palavra “apaixonada”.
— Isso mesmo que você ouviu, apaixonada. Totalmente entregue, como nunca antes em toda a minha vida. — confirmou Duda, sentindo-se bem em falar para alguém que não fosse suas paredes.
— Apaixonada?! — Perguntou num gritinho agudo. — Não acredito! Finalmente o Senhor atendeu minhas preces. Você não sabe o quanto rezei, pedindo que encontrasse um novo amor.
— Pois acho que Ele te ouviu.
— Aiiiii, adoro essas notícias! — Vibrou a amiga, excitada com a novidade. — Pena que não podemos fazer uma conference call com a Lis. Ela já sabe?
— Ainda não.
— Gente, isso é tão raro. Quando foi a última vez mesmo que você disse que estava apaixonada? Acho que ainda estávamos na faculdade… Precisamos falar com a Lis. — informou, decidida.
— Ei, você quer saber ou não? Preciso falar, desabafar, por pra fora um monte de dúvidas e… Agora falando sério, acho que me meti numa fria. — confessou Duda.
— Oh, amiga. Desculpe. É que sempre somos eu e Lis que falamos de nossos sentimentos e você me pegou de surpresa. — justificou-se. — Claro que quero ouvir. Conte-me tudo: quem é ele, onde você o conheceu, que fria é essa que você se meteu… Ih, acho que já sei o que é… Ele é casado, acertei?
— Não, ele não é casado. Pelo menos eu acho que não.
— Como acha que não? Você não perguntou?
— Não, ele não é casado. Disso eu tenho certeza.
— E qual é a fria? — perguntou, rindo da confusão de Duda.
— Lembra que há umas duas semanas eu fui a um congresso em São José dos Campos?
— Sim, você ligou para avisar que iria.
— Eu o conheci lá. Ele estava hospedado no mesmo hotel que eu e o conheci no elevador.
— No elevador?
— É. E prepare-se que lá vem bomba: eu tomei a iniciativa.
— Mentira? — surpreendeu-se Dani. — Você? Estava bêbada?!
— Claro que não! Dani, juro que não sei explicar o que deu em mim. Quando o vi senti uma atração tão forte, mas tão forte por aquele homem, que não pude me controlar. Tomei a iniciativa da conversa, falei um monte de bobagens, coisas sem sentido, me atrapalhei toda, as palavras saíam sem que eu raciocinasse direito… Não parecia eu, sabe? Sempre tão centrada e, de repente, falando coisas sem nexo, chamei o cara pra passear de elevador comigo, quase o forcei a subir e descer umas três ou quatro vezes…
— Como assiiiiiiiiiiiim? — desacreditou Dani.
— Não estou dizendo que não sei o que deu em mim?! Nunca agi desta forma antes. Você sabe que sou tímida demais para dar em cima de alguém. Eu parecia estar possuída, sabe?!
— Tá, e aí? Conte mais!
— Eu o convidei para ir ao jantar do congresso comigo e…
— Você convidou um cara para jantar? Que pra frente!
— E também para ir ao meu quarto.
— O quê? — deu um gritinho agudo. — Você fez isso?
— Fiz.
— E ele foi?
— Foi.
— Foi? — guinchou ainda mais alto. — Você transou com ele?
— Sim.
— Duda! Gente, estou passadinha da silva. Quem é esse homem que te virou do avesso, amiga?
— Sabiá.
— Sabiá? Que é isso? Ah, não me diga que já inventou um apelido pra ele? — quis saber Dani, referindo-se à mania que Duda tem de apelidar todas as pessoas que ela conhece.
— Não ainda. Ele se chama João. Sabiá é o nome artístico.
— Dudaaaaaaaaaaaa! — berrou Dani do outro lado do telefone, caindo a ficha. — Você transou com o Sabiá, o cantor daquela dupla sertaneja?
— Sim.
— Ah, fala sério!
— Estou falando. Você acha que eu iria inventar uma coisa dessas por diversão?
— Duda! — gritou mais uma vez. — Ih, acho que acordei Nina. — falou, baixando a voz.
— E agora todos os seus vizinhos já sabem que transei com Sabiá, quer dizer, João. Pô, deixa de ser histérica e fala mais baixo, cacete!
— Peraí que vou lá no quarto dela ver se acordou mesmo — pediu Dani, de volta ao seu estado quase normal. — Não acordou. Foi só um resmungo. Duda, que história mais louca é essa? Você dando em cima de um cantor.
— Eu não sabia que ele era cantor, nem que cantava. Você sabe que eu nem gosto de música sertaneja e não sei nada de cantores ou de gente famosa. Nunca imaginei que ele fosse quem é. Te juro. Me senti atraída pelo homem que estava naquele elevador e foi por ele que me apaixonei, não por um artista.
— E que homem amiga! Ele é tudo aquilo que a gente vê na TV?
— Dani, ele é lindo demais… — suspirou. — Ontem eu o vi num programa de TV, mas nem se compara. Pessoalmente ele é muuuuito mais bonito.
— É mesmo? E é possível? Ai, me conta mais. Como ele é pessoalmente? — implorou cheia de curiosidade.
— Ele é muito alto. Deve ter uns…
— 1,90 metros de altura. — completou Dani.
— Como você sabe?
— Li numa revista. Tá, que mais?
— Ele é forte também, mas não chega a ser musculoso, barriga definida, nada disso. Ele tem um corpo legal. Pernas grossas, braços fortes, peito largo. Estava bronzeado e a cor da pele destacava ainda mais os olhos amendoados. E não é só a beleza em si. Ele tem charme, carisma, cara de gente boa, de amigo, de quem se pode confiar, sabe como?
— Eu fui a um show deles com o Beto. Além de ser um homem bonito, ele tem presença e a mulherada fica louca querendo pegar, tocar, jogando coisas no palco… Até eu fiquei um pouco animadinha, mas Beto cortou meu barato.
— Essa é a fria. Olha onde eu fui me meter. Um cara que tem todas as mulheres que quiser e quando quiser. E eu sou apenas a Duda. Não sou famosa, nem tão bonita, nem tão atraente, sou uma mulher normal demais para ele.
— Mas e aí, vocês ficaram juntos e…?
— E nada. Não me pergunte mais porque não sei nada dele: onde mora, telefone, preferências, gostos… O que sei, você também sabe ou até um pouco mais, já que lê revistas.
— Sério? Então, pra ele foi só uma aventura?
— Pois é, isso é o que eu não sei. Ontem recebi um e-mail…
— Ãh? Você tem o e-mail do Sabiá? Pode me passar! — ordenou.
— Ei, se controle que eu estou contando uma coisa importante, poxa!
— Tááá… Desculpa. É que estou muito empolgada com a história toda. Tipo, não é todo dia que a minha melhor amiga transa com um cara famoso.
— Menos, por favor. Então, ontem recebi um e-mail, ele disse que não para de pensar em mim, que está apaixonado…
— Ele falou isso? — Dani voltou a ficar histérica.
— Fala baixo ou vai acordar a Nina, sua louca.
— Ai, é que é muita coisa vinda de você. Não estou acostumada. Sua vida foi sempre tão certinha, tão… Digamos… sem graça, e agora você vem com um babado desses? Lis vai pirar quando souber.
— Posso continuar?
— Pode.
— Eu voltei de São José completamente apaixonada. Só que os dias foram passando, ele não me procurou, eu também não o procurei, por não ter nenhum de seus contatos e já estava me conformando e tentando esquecer. Só que o e-mail de ontem me deixou super empolgada de novo.
— E por que você não contou essa história antes?
— Sei lá, estava me achando ridícula, meio adolescente que se apaixona pelo cantor da banda de rock do momento, sabe como é?
— Sua besta. Nada a ver. Eu me apaixonei por todos os Menudos e não me senti nada ridícula. Liga pra ele! — aconselhou.
— Não tenho o número.
— Responde o e-mail então.
— Já respondi e até agora ele não retornou. Ai, que angústia. Essa coisa de não saber nada, de não ter o que fazer, de esperar que ele dê o próximo passo e de ele ser quem é, está me consumindo. O que eu faço? Esqueço ou me entrego a essa paixão?
— Que difícil, hein amiga?! Se ele fosse um sujeito normal… É complicado se envolver com alguém que vive assediado, que está exposto e que não para em um lugar fixo, né? Ele deve viver viajando, frequentando festas, lugares legais, rodeado de mulheres bonitas, modelos famosas… Nem sei o que dizer. Pelo que senti, você está super apaixonada.
— Muito.
— De uma coisa eu tenho certeza, não quero ver você sofrendo novamente por um homem que não te merece.

Conversar com Dani ajudou a aliviar um pouco o coração de Duda, que decidiu deixar para que o destino resolvesse essa questão — já que foi ele quem a meteu nessa confusão. Decidiu também não sofrer por antecipação. Fazia tanto tempo que não sabia o que era estar apaixonada que se deu ao luxo de viver um pouco esse sentimento avassalador e empolgante, mesmo que se tornasse unilateral.
O dia seguinte transcorreu normal, como toda segunda-feira. Atendeu seus pacientes, almoçou sozinha, checou seus e-mails diversas vezes e, quando se aproximava o final do dia, sua secretária perguntou se poderia fazer um encaixe. Um paciente ligou de última hora implorando por uma consulta, alegando estar com astigmatismo e que precisava urgente de uma consulta. Como ela não tinha nada programado para aquela noite, resolveu atender o tal paciente, mesmo que isso significasse encarar o trânsito pesado na volta para casa.
— Com licença doutora, — pediu Lily entrando em sua sala — o paciente das seis chegou. — informou, respirando com dificuldade.
— Peça para entrar, por favor.
— Tudo bem. — Lily, ainda parada diante dela, comportava-se de maneira incomum.
— Você precisa de alguma coisa? Se precisar ir embora pode ir que resolvo tudo por aqui.
— Ele se chama João. — Lily faz uma pausa, esperando pela reação de sua chefe que não veio. — Mas acho que não deve ser o tal João que você está esperando. Posso pedir para ele entrar? — perguntou novamente.
— Pode, claro. Até porque ele já está atrasado.
Será que é ele? — Pensou Duda, diante do comentário de Lily. Se bem que João é um nome tão comum, pensou numa tentativa de não se iludir.
— Ok.
Lily porém continuava em pé na sala de Duda.
— Algum problema Lily? — quis saber diante daquele fato estranho. Ela nunca vira sua secretária daquela forma.
— Não, nenhum. Só estou respirando um pouco… — respondeu ela com uma das mãos no peito, como se estivesse passando mal. — Vou buscá-lo.
Lily voltou para a sala de espera e pediu que o paciente a acompanhasse até a sala de Duda.
— Por favor. — disse abrindo a porta da sala de Duda.
— Boa noite, moça! — cumprimentou João, o deus grego destruidor de corações, assim que Lily fechou a porta. — Gostaria de jantar comigo esta noite?
— João. — seu coração estava a galopes, desenfreado, saltando pela boca. O homem que estava mexendo com seus sentimentos estava ali, diante de seus olhos, ao vivo e a cores.
Isso é real. Não é um sonho, pensou Duda sem mover seus olhos dos dele.
— Pegue suas coisas e venha comigo? — pediu, aproximando-se dela.
O perfume de João tomou conta do ambiente e, por segundos, ela sentiu uma vontade imensa de se jogar em seus braços.
— João… você veio. — foi o que conseguiu dizer.
Ela desejou tanto este momento que agora não sabia como reagir à surpresa. Deveria abraçá-lo, beijá-lo no rosto, dar um beijo na boca ou esperar que ele tomasse a iniciativa?
Duda estava confusa.
— Venha comigo? — pediu mais uma vez, segurando seu braço.
— Vou.
Rapidamente tirou o jaleco, jogou-o em cima de sua cadeira, pegou sua bolsa e juntos saíram da sala.
— Lily, você está liberada! — orientou Duda.
— E cancele as consultas que a doutora Duda tem para amanhã, por favor, Lily. — ordenou João, o bonitão, que estava mais lindo do que nunca num jeans desbotado, camisa polo preta por fora da calça, deixando apenas a fivela do cinto aparecendo e tênis casual preto.
— Devo fazer isso mesmo, doutora?
— Sim Lily. — Duda não pôde conter um sorriso de alegria. Na verdade ela queria gritar, pular, cantar de tão feliz que estava. — Por favor, ligue para cada paciente e invente uma boa desculpa. — pediu Duda, totalmente entregue e sem raciocinar sobre o que estava fazendo. — Boa noite, Lily.
— Doutora? Será que eu poderia tirar uma foto com ele? — pediu meio sem jeito.
— Claro Lily, será um prazer. — disse João. — Cadê sua máquina?
— Ai, meu Deus, estou tão nervosa… — balbuciou Lily, procurando a câmera na bolsa. — Sou super fã de vocês, já fui a vários shows, tenho todos os DVDs… Ai, doutora, desculpe, mas não pude resistir. — Desculpou-se, diante do semblante de Duda.
Duda não conseguiu disfarçar sua surpresa.
Será que vou conseguir lidar com isso? — Pensou, assistindo incrédula aquele assédio comedido de sua secretária.
— Aqui está. — Lily mostrou a máquina. — Você pode tirar a foto, doutora?
— Eu tiro. Dá a câmera aqui! — João abraçou a secretária e apontou a máquina para seus rostos. — Sorria. — pediu com seu melhor sorriso. — Pronto. — devolveu a máquina. — Agora vamos, moça. Estamos atrasados. Boa noite e bom descanso, Lily.
— Boa noite e obrigada pela foto.
— Para onde estamos indo? — quis saber Duda, enquanto aguardavam o elevador do prédio.
— Surpresa.
— Hum… será que devo confiar?
— Deve. — respondeu João quando a porta se abriu.
— Fique tranquilo que não vou fazer você dar mil voltas de elevador de novo, agora que sei que é acrofóbico. — assegurou.
— Com você eu subiria o Empire State Building numa boa.
— Jura que você tem fobia de elevador?
— Tenho. Iria sugerir as escadas, mas como são apenas quatro andares e estamos atrasados…
— Estamos?
— Um pouco atrasados, mas está tudo sob controle. Vamos caminhar um pouquinho? — pediu assim que as portas se abriram já no térreo.
Duda consentiu, balançando a cabeça.
— Só um segundo que vou precisar disto aqui. — pediu, tirando um boné do bolso de trás da calça e o vestiu. — Vamos?
João abraçou Duda pela cintura e, juntos, caminharam em meio à multidão por duas quadras até chegarem em frente a um hotel, onde ele a convidou para entrar.
— O que vamos fazer neste hotel?
— Andar de elevador. Não é esse o seu esporte preferido? — brincou.
Ela apenas sorriu enquanto atravessavam o saguão rapidamente, João guiando Duda gentilmente até os elevadores.
— Você está hospedado aqui? — quis saber morta de curiosidade, assim que a porta se fechou e o elevador começou a subir.
— Não.
— Então você está me levando para jantar no restaurante que fica na cobertura, acertei? — arriscou.
— Também não. O restaurante fica no térreo.
— Não estou entendendo.
— Não é para entender. — disse, dando uma piscadela de olho. — É para viver, sentir, curtir… Vamos por aqui. — indicou, quando a porta voltou a abrir.
Não havia nada naquele andar com exceção de uma única porta. João se dirigiu até ela e a abriu. Dentro havia uma escada que Duda começou a subir sem fazer perguntas, apesar de estar explodindo de curiosidade. Quando chegaram ao topo da escada se depararam com outra porta e João a abriu imediatamente. Diante deles, encontrava-se um heliponto e, nele, um helicóptero pousado.
Quando Duda percebeu o que estava prestes a acontecer, não conseguiu se conter:
— João, você é…
— Shiiiiii! — Ele a calou com o dedo indicador pousando-o suavemente em seus lábios. Puxou-a com certa força pela cintura para perto dele e pressionou seu corpo contra o dela. — Eu precisava tanto te ver. — seu olhar escorregou para a boca de Duda, enquanto o dedo polegar brincava com os lábios dela. Duda estava totalmente entregue, ansiando por um beijo. — Se você soubesse o quanto pensei em você, o quanto te quero…
Duda jogou seus braços em volta do pescoço de João, pronta para beijá-lo.
— Acho que esse beijo vai ter que esperar um pouco mais. Se eu te beijar agora não vou conseguir parar. — sussurrou, sem mover os olhos de seus lábios. — Um beijo é pouco. Quero muitos, quero você inteira… — confessou enquanto acariciava seu rosto com dos demais dedos, sem mover o polegar de sua boca. — Precisamos ir. — pegando-a pela mão, conduziu-a até a aeronave.
— Boa noite, comandante. Pronto para decolar? — João cumprimentou o piloto que os aguardava sentado na cabine de comando.
— Quando quiserem.
João a ajudou a subir e, logo em seguida, se acomodou ao seu lado.
O helicóptero começou a levantar voo e Duda segurou firme a mão de João, aconchegando-se em seu peito.
A vista noturna de São Paulo era deslumbrante. Duda nunca andara de helicóptero antes e estava adorando a aventura. Se a vista de sua varanda no Brooklin a deixava fascinada, ver São Paulo inteira, toda iluminada, era mágico. Não conseguia tirar os olhos da janela, tentando identificar os prédios, bairros e pontes. Até esqueceu de perguntar para onde estavam indo.
Minutos mais tarde, a escuridão foi tomando conta do cenário, sendo interrompida eventualmente por poucas áreas iluminadas.
— Para onde estamos indo? — lembrou Duda, cortando o longo e mágico silêncio.
— Jantar, ué. Não lembra que te convidei?
— E onde estamos indo jantar? — insistiu.
— Surpresa.
— João, sou curiosa demais para mistérios e surpresas. Conta vai, por favor? — pediu fazendo charme.
— Se eu contar, vai estragar a surpresa e perder todo o encanto deste momento.
— Mas…
— Fique tranquila que está segura comigo. Aproveite o momento… — Pediu baixinho em seu ouvido. — Já reparou na lua? Olhe como está linda, cheia e brilhante. Repare como a natureza se preparou para nos receber esta noite. É a nossa noite. Se entregue.
— Eu estou entregue. Mais do que queria ou devia, diga-se de passagem…
— Ei…
João ajeitou delicadamente os cabelos de Duda atrás da orelha. Em seguida, apoiou a testa em sua cabeça e sussurrou em seu ouvido:
— Vamos ter muito tempo para conversar, para perguntar o que quisermos, para dizer o que queremos… Vamos fazer isso quando estivermos sozinhos, sem plateia, hum?
Duda concordou balançando com a cabeça.
Como pode não ter se tocado desse detalhe antes? João fora discreto desde o momento em que a pegou no consultório. Não queria chamar a atenção, não queria ser reconhecido, não queria que soubessem de sua intimidade.
Será que consigo lidar com mais esse detalhe: Assédio, fãs e agora tem a discrição, falar baixo, jantar em lugares misteriosos… — anotou Duda mentalmente.
— Você consegue imaginar o quanto te desejei nos últimos dias?
Duda mencionou falar alguma coisa.
— Não fale nada, apenas ouça. — ordenou carinhosamente em seu ouvido. — Não sei nada de você, além do seu nome. O que sei e o que conheci de você, já foi o suficiente para me encantar. Não imaginava que poderia sentir o que estou sentindo por você. Não lembrava mais o quanto é bom pensar em alguém. — ele falava pausadamente, procurando as palavras certas. — Achava impossível que alguma mulher pudesse tirar a concentração e o foco que tenho no meu trabalho… E você tirou. Simplesmente não conseguia tirá-la dos meus pensamentos, por mais que tentasse. — fez outra pausa, respirando devagar. — Estou apaixonado por você, moça linda. E quero muito viver esse sentimento, quero te dar o que estou sentindo, quero conhecê-la, saber dos seus defeitos e das suas qualidades. Quero passar outras noites iguais a que tivemos naquele hotel. Quero você para mim.
Duda ouvia aquelas declarações com o coração explodindo de alegria e se contendo ao máximo para não abraçar João e enchê-lo de beijos.
— Pousaremos em aproximadamente dez minutos, senhor. — anunciou o piloto, interrompendo aquele momento mágico.
— Obrigado comandante. — respondeu João, voltando sua cabeça para o encosto do assento.
— Olha lá, é o mar! — Duda falou mais alto do que gostaria. — Onde estamos?
— No Guarujá.
— Uau! — vibrou, sem ainda acreditar no que estava vivendo.
Parece até cena de filme ou algum conto de fadas moderno. Ela, uma mulher normal, voando de helicóptero com João, um cantor-famoso-lindo-de-morrer-e-apaixonado-por-ela, indo jantar em algum lugar do Guarujá.
Ah, se ao menos pudesse ligar rapidinho para Lis e Dani e contar a loucura maravilhosa que o destino estava fazendo em sua vida… Seria o máximo dividir esse momento com suas amigas!
Assim que pousaram e o comandante autorizou o desembarque, João, usando de todo seu cavalheirismo, ajudou Duda a sair da aeronave, segurando sua mão direita e também a sua bolsa.
— Onde pousamos? — quis saber, enquanto caminhavam para longe do helicóptero.
— No heliporto de um hotel, praia de Pernambuco-Guarujá.
João tirou seu celular do bolso e devolveu a bolsa para Duda.
— Ahá, então é aqui que vamos jantar!
— Não. Ainda não chegamos ao nosso destino. — respondeu, digitando um número em seu celular. — Será que essa moça tão curiosa pode aguentar só mais um pouquinho? Prometo que não vai demorar.
— Tenho alternativa?
— Não.
— Francisco? Chegamos. Me espera na frente do hotel que estarei aí em menos de cinco minutos… Isso, por favor Francisco. Obrigado. — orientou João por telefone.
— Quem é Francisco? Ah, já sei. — emendou Duda. — É surpresa. João a beijou no rosto, rindo de seu senso de humor.
— Por aqui, por favor. — indicou, abrindo a porta.
Desceram por uma escada e, no andar debaixo, pegaram o elevador até o térreo do hotel. Saíram pela porta principal. De pronto João avistou o carro que estava esperando e se encaminhou até ele. Abrindo a porta, pediu:
— Por favor, moça bonita.
João entrou em seguida e acomodou-se ao lado de Duda, no banco de trás do automóvel.
— Boa noite, Francisco. — Duda achou por bem cumprimentá-lo, mesmo que ainda não tivessem sido apresentados.
— Boa noite. — respondeu ele.
— Boa noite, Francisco. — cumprimentou João, tirando o boné da cabeça e passando as mãos pelos cabelos. — Tudo bem com o senhor?
— Boa noite Sabiá. Está tudo certo e na graça de Deus.
— Ótimo. Então, podemos ir?
— Agora mesmo.
Francisco deu partida no carro e saiu por uma avenida grande, misturando-se ao trânsito da cidade. Não demorou muito já estavam na orla e Duda pôde observar o mar mais de perto.
Ela sempre teve paixão pelo mar. Desde pequena frequentou a praia. Na infância, seus pais mantinham um apartamento em Bertioga. Os melhores momentos de sua vida foram passados no litoral, tendo o mar como pano de fundo. E agora ele estava presente mais uma vez.
Rapidamente chegaram a um lugar que Duda não conseguiu adivinhar o que era. Uns galpões enormes, com muito movimento de gente chegando e saindo. Francisco estacionou o carro próximo à entrada do lugar e eles desembarcaram.
João se afastou por um momento para tratar de algum assunto com Francisco e logo retornou para o lado de Duda.
— Vamos? — convidou João.
Eles seguiram em direção a esses galpões e tomaram uma entrada lateral. Alguns passos depois, Duda percebeu que se encontravam em uma marina ou seria um iate clube?
— Gosta de navegar? — perguntou, enquanto caminhavam.
— Navegar? — de repente, Duda sacou que não iriam jantar coisa nenhuma e sim navegar em um barco. — Adoro. — sorriu, admirando o lugar que estava cheio de barcos ancorados.
João parou ao lado de uma mureta que separava o mar da marina e perguntou:
— Gosta mesmo ou está falando para me agradar?
— Gosto de verdade. Adoro mar, adoro estar perto dele.
— Então, senhorita, seja bem-vinda a bordo. Eu, capitão João, te dou as boas vindas ao barco “Pássaros do Mar”. — ele estendeu o braço direito em direção à várias lanchas que estavam paradas perto deles.
— Como? — perguntou, olhando para todos aqueles barcos ancorados à sua frente. Ela avistou a lancha onde estava escrito em letra cursiva: “Pássaros do Mar”.
— Nossa, João! Nós vamos andar neste barco grande? — quis saber, admirada com a imponência e beleza da lancha atracada ao lado. Era a maior entre todas. — E é você quem vai pilotar?
— Sim senhora. — brincou ao mesmo tempo em que bateu uma continência.
— Você sabe pilotar esse negócio? Parece tão grande.
— É, até que não sou tão ruim assim. — respondeu cheio de modéstia. — Mas, hoje, quem vai pilotar é o Almir. Segundo piloto oficial do barco. Quero estar livre para você. — ele acariciou seus cabelos. — Vamos embarcar?
— Vamos.
João guiou Duda e a ajudou embarcar. Almir apareceu em seguida e João a apresentou para ele. Eles conversaram sobre o destino, sobre coisas relacionadas à lancha, trocaram informações meteorológicas, etc. Almir se afastou e João perguntou para Duda se ela gostaria de conhecer a embarcação.
Eles haviam embarcado por uma espécie de deck, localizado na popa da lancha. Neste ambiente, havia duas espreguiçadeiras e uma TV de plasma gigante na parede de fundo do barco. Subiram por uma escada na lateral direita e chegaram a uma saleta com um sofá que serve para contemplar a vista. Por uma escada que fica ao fundo desta saleta, desceram para a área íntima da embarcação.
A cada passo Duda ficava mais fascinada. Nunca em sua vida tinha visto algo tão belo e luxuoso. Se por fora a lancha mostrava-se imponente pela altura e tamanho, por dentro destacava-se pelo luxo, sofisticação e bom gosto na decoração. O salão de entrada era composto por um sofá em formato de L em couro branco, mesa de centro, carpete marfim em todo o ambiente, uma TV de tela plana e outros objetos completavam a decoração. Ao lado havia uma cozinha super equipada, com balcão de apoio, banquetas e uma geladeira side by side.
— João, que coisa mais linda e… confortável e… tão bem decorada. Parece até uma casa de verdade. Pelo menos a cozinha é muito maior que a minha. — comentou andando pelo ambiente, atenta aos mínimos detalhes.
— Ainda faltam as cabines. Vem comigo. — convidou, puxando-a pela mão.
João a guiou até uma das cabines e abriu a porta para que entrasse primeiro.
— Gostou? — perguntou ele diante do silêncio de Duda. — Esta é a minha.
— Se gostei? É linda, maravilhosa… e grande também. Olha, tem até banheiro. E é bem maior que o da minha casa! — exclamou, como se fosse uma criança descobrindo uma novidade.
No mesmo instante, João a tomou em seus braços, trazendo-a para perto de si.
— Ah, moça. Que falta eu senti de você, desse seu jeito encantador, — e a beijou na bochecha. — da sua espontaneidade, — beijou-a próximo da boca. — do perfume dos seus cabelos, — depois o queixo. — da sua pele…
E sem perder mais um segundo, Duda o calou com o beijo que tanto esperou naqueles últimos dias e, mais ainda nas últimas horas.
Foi um beijo cheio de paixão, voracidade e desejo. Aos poucos, a ansiedade foi diminuindo e o beijo se tornou demorado, leve, interrompido por um olhar. Depois por um aconchego ou um silêncio necessário para apenas sentir a magia do momento. João não se cansava de dizer o quanto a queria, o quanto sentira sua falta, o quanto estava apaixonado.
— João, eu também pensei muito em você. Se soubesse o quanto eu te quis, não teria sumido por tanto tempo. — contou Duda, afastando-se dele e sentando-se numa poltrona ao lado da TV.
— Desculpa. Os últimos dias foram tão corridos… Um show atrás do outro. O tempo que me sobrava eu aproveitava para dormir de tão exausto que estava.
Ela apenas o olhou com um olhar questionador.
— Sei que está pensando que são apenas desculpas e, que se eu quisesse, poderia arrumar tempo pra te escrever ou te ligar. E você tem toda razão. — sorriu, encantadoramente. — Mas estava confuso. Foi tudo muito rápido e fiquei assustado. — confessou. — Apesar de querer muito te ver de novo, achei que aquele entusiasmo todo fosse passar a qualquer momento, como já aconteceu outras vezes comigo. Só que não passou. Pelo contrário, só fazia aumentar e quando percebi que estava apaixonado, decidi te procurar. Você não está acreditando em mim, né?
— Estou sim. — Ela sorriu.
— Quando acordei hoje pela manhã, o primeiro pensamento que cruzou minha mente foi uma imagem de você dormindo, com seu cabelo esparramado pelo travesseiro. Foi assim que a deixei quando o dia amanheceu lá em São José dos Campos. Aí eu decidi: tinha que te ver hoje de qualquer maneira.
— Tenho um segredo para te contar.
— Conte. — pediu colocando suas mãos nos bolsos da calça jeans de um modo muito charmoso.
— Me apaixonei por você à primeira vista dentro daquele elevador. — Contou encabulada ao lembrar-se da cena que fez no hotel, em São José dos Campos.
— E eu me apaixonei enquanto dançávamos no seu quarto. Estava linda demais naquele vestido vermelho.
— Jura? Mas eu estraguei toda a cena, errando a letra da música, desafinando horrores, pisando no seu pé…
— Acho que foi esse o fator decisivo.
Duda se levantou num pulo, abraçou-o forte e ficou sentindo seu cheiro. Ela estava tão feliz, tão completa que não queria mais sair dos braços dele. Em seus pensamentos, ela desejava que aquela noite durasse para sempre.
— Que bom que gosta de navegar. Estava apreensivo, achando que poderia passar mal ou que não curtia. — João cortou o longo silêncio.
— Eu gosto. Nunca andei numa lancha tão linda assim, só em barquinhos modestos de beira de praia. — comentou, observando melhor o ambiente.
Duda estava maravilhada com a suíte. Nela, havia uma cama de casal com um criado mudo de cada lado, TV de tela plana gigante, móveis, abajures, objetos de decoração, almofadas, tudo de muito bom gosto, além de um banheiro espaçoso.
— E tem mais duas cabines: uma de casal e outra de solteiro. — completou.
— É mesmo? E pra que tudo isso?
— Ah, a lancha não é só minha. Toda a família usa. Ângelo com a esposa, Antônio, meu outro irmão, também curte o barco com a família dele. Meus pais… Às vezes, todo mundo junto.
Ele tem uma família grande, pensou Duda, ouvindo João contar tão à vontade de sua família. Parecia até que ela já os conhecia.
— Vamos voltar ao salão de entrada?
— Onde você mora João? — Duda fez a pergunta inconscientemente. Era uma das coisas que queria muito saber a seu respeito.
— Moro na estrada. — fez graça.
— Mas, você não tem uma casa, assim como todo mundo?
— Estou brincando. Sim, dona moça, tenho uma casa e ela fica em São Paulo.
— Jura? — vibrou com a informação. — Em qual bairro?
— Na Vila Nova Conceição.
— Hum… Não é tão longe assim do meu bairro.
— E em qual bairro você mora?
— Moro no Brookl… João, que liiiindo! — exclamou num de seus famosos gritinhos, quando viu a mesa posta para duas pessoas com pratos, talheres de prata, taças, guardanapos de pano e dois castiçais com velas. — Isso tudo é pra nós? — admirou-se. — Digo, minutos atrás não havia nada aqui, além do sofá e demais objetos.
— Eu te convidei para jantar, lembra? Por favor, sente-se. — pediu, puxando a cadeira.
João foi até o aparador e pegou uma garrafa de champanhe que estava dentro do balde de gelo e a abriu. A rolha voou longe e Duda soltou uns gritinhos de alegria.
— A que vamos brindar? — quis saber quando recebeu a taça das mãos de João.
— A um novo começo em nossas vidas. Não sei por que, mas tenho a sensação de que seremos muito felizes juntos. — ele sorriu encantadoramente.
Duda retribuiu o sorriso com a mesma certeza em seu coração.

“Pássaros do Mar” avançava mar adentro rumo à Angra dos Reis, enquanto Duda e João, finalmente conversavam e se conheciam, jantando ao som de By Your Side da Sade.
Sem pressa, sem urgência, nem ansiedade. Afinal, eles têm uma vida inteira pela frente.

FIM