Estava na sala de embarque do aeroporto internacional do Galeão – Rio de Janeiro, aguardando meu voo. A atendente da companhia aérea avisou que o voo estava atrasado devido ao mau tempo em Curitiba. Não tinha previsões e teríamos que aguardar na sala de embarque por novas informações.

Ótimo. Era tudo o que eu precisava! — consultei o relógio, já me programando para o pior.

Estava indo para Cuiabá gerenciar um processo seletivo na nova filial da empresa onde trabalho, da qual sou gerente de Recursos Humanos. Tenho uma reunião amanhã cedo com os demais funcionários do setor para alinhar os processos e acertar os últimos detalhes. Para os três próximos dias, está programada uma bateria de dinâmicas e entrevistas com os mais variados níveis hierárquicos. Trata-se de um processo de contratação em massa, para que a fábrica de bebidas entre em produção. Para mim, será um grande desafio gerenciar a equipe e sermos assertivos nas contratações.

Estou ansiosa, apesar da minha larga experiência na área, é a primeira vez que vou gerenciar um projeto tão grande e agressivo como este. E o atraso do voo não estava nos meus planos.

Um tumulto se formou em volta da agente de embarque (como se a culpa do mau tempo fosse dela). Alguns estavam exaltados, insultando-a com palavrões e desaforos, outros exigiram que ela parisse uma aeronave naquele exato momento para levá-los aonde quer que fosse. Um dos passageiros bradava em alto e bom som a seguinte frase: “você sabe quem sou eu, minha filha? Você sabe com quem você está falando?” Juro que tive pena dele. Será que perdeu a memória com a notícia do atraso do voo e esqueceu completamente quem é? Patético!

Decidi me afastar dali e tomar um café para pensar com calma em um plano B. Fui até uma cafeteria um pouco afastada do portão de embarque onde acontecia o tumulto, entrei na fila e, quando chegou minha vez, pedi um café.

Sentei-me em uma mesinha redonda com duas cadeiras e comecei a sorver meu expresso que, por sinal, estava delicioso. Abri o laptop para pesquisar outras alternativas de voos para Cuiabá, nos sites das demais companhias aéreas. Foi quando o avistei sentado em uma cadeira a uns dez metros à minha frente, falando ao celular. Num primeiro momento, achei que fosse alguém muito parecido. Depois, observando melhor os olhares, os gestos e o sorriso largo, que sempre foi sua marca registrada, tive a certeza de que se tratava de Pedro, meu ex-namorado e amor mal resolvido.

Seu cabelo estava um pouco grisalho, algumas rugas de expressão se formavam em volta dos olhos quando ele sorria ao falar no telefone. Seu corpo está mais forte do que era quando o vi pela última vez. O fato é que continuava lindo e charmoso, mesmo com seus 40 anos.

De imediato, senti aquela velha sensação aquecendo o meu coração. A mesma sensação que sentia quando caminhava de mãos dadas com ele pelos corredores da faculdade. Uma sensação de euforia, de alegria intensa, de paixão… Uma mistura boa que me brindava com um sentimento de felicidade muito grande.

Algo que não sinto há muito tempo. Mentalmente, fiz uma conta rápida: já se passaram vinte anos desde que o vi pela última vez, aqui mesmo neste aeroporto. Pedro e eu cursávamos administração na UERJ. No meio do curso ele recebeu uma oportunidade de fazer um estágio na Austrália, pela empresa para a qual trabalhava na época. Apesar de estarmos namorando há dois anos e super apaixonados, ele não hesitou em aceitar a proposta. Incentivei, éramos muito jovens e a carreira deveria ser priorizada. Quem ama liberta, não é isso?

O mês que antecedeu sua viagem foi um pesadelo para nós. Passávamos os dias juntos, aproveitando cada minuto, curtindo o máximo para poder suportar a distância que se aproximava a cada dia. Pedro disse que iria me escrever e ligar sempre que possível. E assim o fez nos primeiros meses. Na época não tínhamos internet e a comunicação mais rápida era o telefone que, em contrapartida, saía muito caro. Minha mãe chegou a proibir minhas ligações para Pedro por causa da fatura altíssima que chegou no primeiro mês de namoro DDI, apelido que demos para essa nova fase do nosso namoro.

Aos poucos, suas ligações foram ficando escassas, assim como as cartas. Eu ligava quase todos os dias, mas nem sempre conseguia falar com Pedro. Escrevia para ele todas as semanas e nem sempre recebia respostas. Não acreditava que ele estava fazendo aquilo comigo. Queria entender por que não correspondia na mesma medida que eu. Até que um dia suas cartas pararam de chegar. Quando liguei para a casa da família com quem ele morava em Sidney, informaram que ele havia se mudado sem deixar endereço. Entrei em desespero. Queria entender, queria notícias de Pedro, sentia saudades e queria ouvir sua voz. Cheguei a ir à casa dos pais dele em busca de notícias e soube pelo porteiro que eles haviam se mudado para outra cidade. Pedro não tinha parentes no Rio de Janeiro a quem eu pudesse recorrer, os amigos não tinham informações, nossos colegas de curso também não sabiam dele e a empresa onde ele trabalhava não dava informações dos funcionários para terceiros.

A última vez que o vi, foi neste aeroporto, no dia 02 de março de 1989 e eu tinha 20 anos. E esta foi a minha história com Pedro. Meu primeiro amor de verdade. Um amor que para mim ficou mal resolvido, não terminado e que me impossibilitou de me relacionar com outros homens.

Isso me afetou de tal forma que cheguei a criar uma linha imaginária dentro de mim: um limite que eu não me permitia ultrapassar com medo de ser abandonada novamente. Por conta desse trauma, rompia os relacionamentos quando eles se aproximavam de algo mais sério e permaneço sozinha até hoje. E agora estamos no mesmo aeroporto, quase frente a frente.

Neste instante o meu celular tocou, uma música um tanto espalhafatosa chamando a atenção de algumas pessoas, inclusive de Pedro. Atendi o telefone olhando para a tela do computador, me controlando para não olhar para ele. Mas sabe quando você sente que a pessoa está te olhando? Eu sentia. E logo senti meu rosto arder, fiquei trêmula e suava frio nas mãos e axilas.

Tentei alongar a conversa o máximo que pude e, quando desliguei o celular, não resisti e arrisquei uma olhada, daquelas que se olha para o ambiente de uma forma geral, mas na direção dele. E Pedro estava me olhando com um olhar interrogativo. Quando nossos olhos se cruzaram, um sorriso se formou em seus lábios. Seus olhos brilharam, seu olhar ficou travesso, como se não estivesse acreditando que era eu que estava ali sentada. Ele pronunciou as palavras “É você?” com os lábios, sem emitir som algum. Balancei a cabeça afirmativamente e sorri. Pedro fez uma expressão de não acreditar, balançou a cabeça e pronunciou algumas coisas que não consegui ler em seus lábios. Ficamos nos olhando por segundos a fio. Um olhar que transmitia, da minha parte, muito sentimento guardado, muitas perguntas que por todos esses anos ainda esperam respostas. E de repente, este elo mágico foi quebrado com a chegada de uma mulher e de uma criança. Eu olhei para mão esquerda dele e vi a aliança. Vi que era uma mulher bonita, bem vestida e que também usava uma aliança. Pedro adotou logo uma postura séria. Parou de me olhar e ficou conversando com garoto, que deveria ter uns 10 anos no máximo.

Aquela cena me atingiu em cheio. Pela primeira vez em vinte anos eu tive a confirmação de que Pedro me deixou e que passei todo esse tempo esperando em vão. Não soube lidar com aquilo. Me deu uma vontade enorme de chorar, de sair dali correndo e não ter que presenciar uma mulher acariciando seu braço de uma forma tão íntima.

Tentei juntar minhas coisas e ir para outro lugar, mas não consegui. Pedi uma água para a mocinha da cafeteria que, gentilmente, trouxe para mim na mesa. Bebi a água devagar, tentando juntar os meus pedaços, mais uma vez espalhados, e me esforçando muito para não olhar para eles.

Alguns minutos se passaram até que a agente de embarque anunciou que uma outra aeronave iria nos levar para Cuiabá. Curitiba permanecia com o tempo fechado e a companhia aérea acabou remanejando alguns voos, nos beneficiando desta forma.

O embarque seria dentro de alguns minutos e uma fila logo se formou diante do portão de número 4. Eu, porém, permaneci sentada. Minha única possibilidade de chegar até o portão seria passando ao lado de Pedro e de sua família e isso eu não queria. Fiquei aguardando o que iria acontecer.

A agente anunciou o embarque para passageiros com prioridade. Pedro e sua família se levantaram. Ele falou alguma coisa para sua esposa que se dirigiu para à frente do portão.

Eles iriam no mesmo voo que eu.

Enquanto guardava minhas coisas, ainda sentada na minha mesa, olhei para frente e vi que ele continuava de pé no mesmo lugar, só que de costas para mim, procurando algo em sua mochila. Em seguida ele virou o rosto em minha direção e apontou a mão esquerda para a cadeira, onde ele estava sentado, e com um sorriso de canto de boca foi se juntar à sua família no portão de embarque.

Esperei que eles embarcassem, para em seguida me dirigir à fila. Ao passar pela cadeira onde Pedro estava sentando, notei que nela havia um cartão de visitas. Peguei o cartão e li: Pedro Solano – gerente administrativo. Era um cartão corporativo com números de telefone fixo, celular e e-mail. Ele queria falar comigo.

Se queria conversar por que não se aproximou de mim? Por que me deixou um cartão escondido de sua esposa? Reprovei sua atitude, mas guardei o cartão no bolso do meu blazer.

Fui a última passageira a embarcar e meu assento era o de número 6D. Pedro estava mais atrás, mas ficou me olhando durante minha passagem pelo corredor da aeronave. Um olhar que me desconcertou. E mais uma vez reprovei sua atitude.

A previsão de chegada em Cuiabá era para as 21h45m. Depois dos serviços de bordo, as luzes da cabine foram reduzidas para que os passageiros pudessem descansar. Não consegui fechar os olhos. Só pensava em Pedro e neste encontro repentino. A certa altura me levantei para ir ao toalete. O da parte dianteira da aeronave estava ocupado e a comissária me sugeriu o da parte traseira. Fui para lá com Pedro me olhando de cima a baixo. Sua esposa e seu filho estavam dormindo acomodados nas poltronas do meio e janela.

Entrei no toalete e, quando ia fechar a porta, senti que alguém a empurrou. Ao abrir para ver o que estava acontecendo Pedro entrou e me espremeu naquele espaço minúsculo que mal cabe uma pessoa, imagine duas. Ficamos praticamente colados um ao outro.

— Você está maluco? — perguntei.

— Você continua linda, Mel.

— Eu me chamo Melissa.

— Pra mim você é a Mel. Minha Mel.

— Como?!

— Você não vai acreditar e pensar que eu estou falando só por falar, mas nunca te esqueci. Sempre penso em você.

— E por que desapareceu?

— Eu mudei de país, né Mel?!

— Sim, mas por que se mudou de casa e não me passou o endereço? Por que não me ligou mais? Por que não me escreveu? Continuei morando na mesma rua lá da Tijuca, no mesmo endereço e com o mesmo número de telefone que você tinha. — desabafei minha mágoa e rancor na cara dele.

— Ah, foi coisa de adolescente. Acho que fiquei maluco com minha liberdade lá em Sidney.

Então foi isso? Nosso amor, que na época nos parecia eterno, para ele não passou de uma paixãozinha que se evaporou nos primeiros meses de liberdade em Sidney.

— E você se casou com aquela moça?

— Sim, ela é australiana. Tenho um filho de nove anos. Há quatro anos voltei da Austrália. Logo que cheguei aqui, fiz de tudo para te encontrar, sabia?

— Pedro, por favor, saia daqui? — pedi zangada.

— Por quê? Vamos aproveitar que nos reencontramos e matar a saudade. Estou indo de férias pro pantanal. Em qual hotel você vai se hospedar?

Eu estava passada. Pedro se tornou um grande sem-vergonha, mentiroso e cafajeste. Sua esposa e seu filho dormindo a poucos metros de nós e ele me cantando no banheiro do avião.

— Pedro, basta! Saia, por favor! Não sou esse tipo de pessoa. Você é casado, tem sua família e não nasci para ser a outra de ninguém. Saia agora ou vou fazer um escândalo tão grande que todos os passageiros vão ficar sabendo. E antes que eu me esqueça, — tirei o cartão dele do bolso do meu casaco — tome aqui seu cartão.

— Para com isso, Mel. Eu sei que ficou balançada quando me viu. Vi no seu olhar.

— Pedro, eu vou gritar. — ameacei.

— Ok, ok. Estou saindo.

Pedro saiu e tranquei a porta do banheiro com raiva. Chorei sentada no vaso sanitário de ódio. Passei vinte anos guardando um amor que foi importante só do meu lado. Eu estava indignada, com ódio e horrorizada com a pessoa que Pedro se tornou.

Minutos depois, já recomposta, voltei ao meu assento e passei o resto da viagem pensativa.

Quando a aeronave aterrissou em Cuiabá e o chefe de equipe abriu as portas da aeronave, fui uma das primeiras a desembarcar. Não olhei para trás. Caminhei até a sala de desembarque do aeroporto, sentindo aquele bafo quente característico de Cuiabá, muito leve e feliz. Eu havia me livrado do fantasma que assombrou os últimos vinte anos da minha vida. E digo mais, me livrei de um homem que iria me fazer de idiota. Me coloquei no lugar da esposa de Pedro, me imaginei dormindo no assento do avião enquanto Pedro se enfiava no toalete com outra mulher. Senti nojo, pena e, finalmente, alívio.

Seguirei em busca da minha felicidade, pois vi que o adolescente que amei na juventude, tinha se tornando uma grande cafajeste. O destino me fez um imenso favor tirando-o do meu caminho. Eu estava livre.

 

Beijos,

Mari









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2 Comentários em “Amor mal resolvido.”


Dani Fuller @ 05-02-2011 - 22:39

acredita Mari q chorei demais lendo essa história no PNTS2 .. fez eu lembrar de coisas q na verdade nem aconteceram ehehehe mas eu fiquei muito comovida.. pois sempre penso em algo do tipo…

mas no fundo é o q a Mel falou.. o destino fez o favor.. o jeito é seguir a vida.

bjssssss

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Mari Reply:

Dani querida!
Iiiiiiupy! Que bom que gostou da minha história. Fico muito feliz em saber. =)
Obrigada por me contar.
Ai, que alegria!
Beijos.
Mari

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